O que esperar de Hebe – o Musical

Na manhã dessa segunda-feira, dia 09/10, a equipe de Hebe, o Musical abriu as portas para a imprensa; e o Minas Nerds estava lá.

Da esquerda para a direita: Wellington Fontinele, Anderson Bueno, Marco Pacheco, Ligia Rocha, Arthur Xexéo, Débora Reis, Miguel Falabella, Fernanda Chamma, Daniel Rocha, Gringo Cardia e Guilherme Herrero. (foto: Nina Webster)

 

A coletiva começou com a apresentação da cena de abertura do musical.  A música é La Mer de Charles Trenet que ficou popular no Brasil na voz de Ivon Curi, a versão em português para a peça foi feita pelo próprio Artur Xexéo, que assina o texto.

A cena começa com Hebe adulta, interpretada por Débora Reis, aquela que temos no nosso imaginário: loira, sorridente, com uma rosa vermelha na mão e nos convida a ver a história de uma menina nascida em Taubaté. A música reforça esse convite com o refrão “Vem ver” e de repente, o mundo se faz preto e branco; entra Hebe jovem, interpretada por Carol Costa enquanto a Hebe adulta passa por três de seus amores Décio Capuano, Lélio Ravagnani e Luís Ramos, e deixa o palco para que sua história seja contada.

O preto e branco,  explica o diretor Miguel Falabella, é um paralelo da vida da cantora-apresentadora com a história da própria televisão brasileira. Hebe Camargo fez parte da história da tevê desde 1950, ano em que nossa televisão teve sua primeira transmissão, e não saiu das telinhas até 2012, ano de sua morte. E no palco, conforme a TV vai se tornando colorida, a história da protagonista também ganha cores.

As canções do musical são em sua grande maioria parte do farto repertório de músicas gravadas por Hebe. As que não são, como a supracitada La Mer, relacionam-se com o imaginário popular ou fazem parte de alguma história que se conecta à protagonista. Ivon Curi, por exemplo, foi parceiro de Hebe na transmissão do que hoje é considerado “o primeiro vídeo clipe da TV brasileira”.

“Eu quero encantar a plateia como a Hebe encantou a vida inteira”

A declaração do diretor fica nítida no excesso de artifícios para reforçar esse desejo pelo “encantamento”.  Além do preto e branco tomando conta do palco existe uma outra referência estética pulsante: a estética art-deco.

O art deco, segundo o cenógrafo e diretor de arte Gringo Cardia, veio como resposta visual à elegância e atemporalidade da personagem-título. Somado à dramaturgia que se baseia no teatro de revista, fica a impressão de um excesso de informações para dar vida à essa figura no palco: um teatro de revista que – até o final do primeiro ato, –  é totalmente em preto e branco e tons de cinza (do cabelo, roupas até às peles dos personagens), e cenário art deco são camadas e camadas de informações visuais opulentas, cheias de detalhes; que em certos momentos parecem confundir os olhos e podem, inclusive, passar despercebidos.

No entanto, de certa forma, tudo acaba fazendo sentido e combinando muito com o estilo do diretor, Miguel Falabella, e da própria Hebe: algo muito “popular” (revista) com algo atemporal e elegante (art deco).

Não se pode negar, de forma alguma, o cuidado com os detalhes na parte visual do espetáculo. Foram criados 120 figurinos para compor o ideal  sofisticado da personagem, dentre eles, réplicas de vestidos clássicos de Hebe Camargo (como o vestido vermelho com o qual ela começa a peça) além de alguns vestidos originais serem usados em cena! Além disso, a ourives Virginia Tavares assina réplicas das joias da protagonista, para as quais foram usados mais de 10 mil cristais lapidados à mão para que fossem réplicas perfeitas.

Esse cuidado se reflete na própria coletiva, como apontou o visagista do musical Anderson Bueno, já que essa coletiva foi uma das poucas a trazer as áreas mais técnicas e plásticas para o palco para serem entrevistadas.

 

Ensemble de Hebe, o Musical em cena que mostra o batismo de Hebe. É possível ver a estética do espetáculo (foto: Nina Webster)

“Nenhuma vida cabe em um palco”

Essa fala, dita por Artur Xexéo, que assina a dramaturgia, por foi a peça central da sua resposta quando perguntado sobre a preocupação da equipe com a fidelidade com a imagem de Hebe Camargo – por ser uma figura tão emblemática e presente na cabeça de todos os brasileiros. Em sua resposta explicou de forma bastante simples e coerente a intenção do musical. Cada um de nós possui uma versão de quem foi essa dama da TV brasileira e é muito difícil retratar todos os aspectos de uma pessoa em duas horas de espetáculo, então se fazem necessários os recortes.

Hebe, o Musical faz seu recorte nos amores de Hebe; seus romances, suas desventuras. De homens casados à “escândalos” para a época, como o seu romance com o boxeador estadunidense Joe Louis, um homem negro: “Ela era uma mulher muito à frente do seu tempo, e eu acho que isso precisa ser celebrado. Esse empoderamento, que ela lá atrás já tinha e que hoje se fala tanto, a Hebe já tinha há muitos anos,” disse Miguel Falabella ao falar da apresentadora.

Xexéo também assinou a biografia de Hebe (Hebe – A Biografia, Editora Best Seller, 2017) e falou um pouco sobre como a família de Hebe abriu as portas para as pesquisas inclusive dando acesso aos álbuns com recortes que remontam a carreira inteira da apresentadora. Esses álbuns foram montados por Leonor, a fã que jurou seguir a carreira de Hebe, ambas com a mesma idade, a cantora gostou tanto do projeto que passou a enviar o material para que os álbuns fossem completados.

Leonor é homenageada no musical, ela é o fio-condutor da narrativa que se passa como se fosse uma grade de TV dos anos 60. A assistente de direção e coreógrafa Fernanda Chamma fez questão de frisar durante a coletiva que a verdadeira Leonor irá assistir ao musical.

O resgate ao esquecido

            Hebe, o musical é apenas o segundo projeto com iniciativa do grupo Hebe Forever, uma plataforma cultural e organização que visa manter viva a memória da cantora-apresentadora. A iniciativa começou com o livro, mas tem pelo menos 9 projetos planejados que vão de uma exposição a uma cinebiografia e um documentário.

Débora Reis, que interpreta Hebe Adulta (foto: Divulgação)

O maior destaque do espetáculo nesse resgate da imagem de Hebe é, sem dúvidas, a atriz Débora Reis. Débora já havia interpretado Hebe antes, no musical Rita Lee mora ao lado, mas como ela própria disse “aquilo foram dois minutos, isso aqui são duas horas”. A construção corporal e de voz da atriz é impressionante, emocionando a todos presentes, inclusive uma mulher que estava na plateia e que trabalhou com Hebe por 7 anos, e que ressaltou o quanto a caracterização e interpretação estavam primorosas. A linguagem corporal, segundo Débora, veio muito do próprio imaginário e da lembrança que ela possui da apresentadora.

A pergunta que o MinasNerds iria fazer acabou sendo feita logo antes do microfone chegar a mim : Uma peça sobre uma figura tão icônica e popular tem a possibilidade de trazer ao teatro pessoas que não costumam frequentá-lo?

A resposta a essa pergunta me pareceu estar impregnada em várias outras respostas. O principal atrativo para o público não acostumado ao teatro vai para além da temática e da personagem principal. O musical é, como um todo, uma homenagem a coisas que não podemos nem devemos esquecer, se mistura com a história do espetáculo, do teatro, no Brasil: histórias de quando Lolita Rodrigues, Hebe e Mazzaropi viajavam com um número pelo interior do estado; as primeiras transmissões dos sinais de TV; a cultura do teatro de revista; e até mesmo da própria Hebe e toda sua icônica carreira que, muitos se esquecem, ou não sabem, começou como cantora.

Esse resgate é, com certeza um dos pilares dessa construção artística do diretor Miguel Falabella, toda essa história esquecida está em cada detalhe dessa produção.

E o desejo é de encantar a todos e, quem sabe, finalmente de convidar um novo público ao teatro.

 

 

Você pode assistir a esse espetáculo de perto a partir da quinta-feira dia 12/10 no teatro Procópio Ferreira.

Quintas-feiras às 21h

Sextas-feiras às 21h

Sábados às 17h e às 21h

e Domingos às 18h

Os ingressos estão à venda pelo site Ingresso Rápido  ou no próprio teatro. Os valores variam de R$ 50 a R$ 190.

 

 


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