As mulheres em Mensur

Mensur é uma prática de esgrima em que os dois lutadores devem acertar o rosto um do outro com espadas afiadas. Começou a ser praticada no início do século XX, aparentemente, por grupos de universitários alemães, que exibiam suas cicatrizes na face como troféus. Uma coisa máscula. Esse também é o nome da novela gráfica lançada pelo Rafael Coutinho em 2017, sua primeira história mais longa desde que publicou Cachalote, em 2010.

A história me interessou porque sou praticante de esgrima (tá, estou numa pausa atualmente) e não conhecia essa modalidade. No quadrinho, estudantes de medicina de Ouro Preto trazem a prática ilegal do Mensur para suas repúblicas e isso transforma completamente a vida de Gringo, o protagonista. É um livro denso que coloca a violência como pano de fundo no retrato de uma sociedade em que as pessoas não cuidam das outras pessoas, é cada um por si. É um retrato masculino do mundo (ou do mundo masculino?), que preza a honra acima de todas as coisas. O protagonista e os personagens com quem interage são na sua maioria homens, mas tem mulheres também e como elas são retratadas foi uma experiência bem interessante de ver.

As mulheres na história

A partir daqui é possível que eu solte alguns spoilers, mas não vou falar da trama principal, só de personagens secundários. O que me pareceu diferente neste livro do que eu vejo em outros quadrinhos masculinos (se quadrinhos feitos por mulheres são femininos, vou chamar assim os feitos por homem aqui) longos ou curtos foi o retrato cru das relações como elas são no mundo (to falando de machismo), mas não é uma descrição passiva.

Ouro Preto em Mensur

São muitas as cenas em que se fala ou se pratica assédio e as mulheres demonstram seu descontentamento, isso parece ser retratado pela ótica delas, o que causa no mínimo um estranhamento, gostaria que chegasse num mal-estar. Em um trecho, uma funcionária pública entra na casa do protagonista para fazer uma entrevista e ele pergunta: “Você não tem medo de fazer esse trabalho? Quer dizer… entrar na casa de algum maluco e tal.” Ela respira fundo (é o que eu sinto) e responde: “Somos bem treinados pra isso, não se preocupe?” e muda de assunto.

cena incidental de assédio em Mensur

São muitas situações em que homens falam com outros homens sobre mulheres como se elas fossem um pedaço de carne. Em várias dessas cenas com o protagonista. E tudo fica muito desconfortável quando ele refuta a conversa. Em uma cena: “Hehe. É ou não é, novinho? Mulé tem que se colocar no lugar hoje em dia. Não é, não?”, o colega de trabalho fala depois de descrever como espancou a esposa, e Gringo responde “Não”, que é o mínimo que se espera que um homem diga numa hora dessas, mas sabemos que é algo bem raro.

Um dos colegas de Gringo, Gordo, personagem que está na trama central do livro, é um homem violento, retratado como tal e sem ser romantizado. Seus rompantes são assustadores.

trecho de Mensur

O livro também tem uma história de estupro, que faz parte da trama principal, mas não é explorada como um fetiche e é um informação que agrega conteúdo aos personagens. Assim como o filho fora do casamento de um dos homens da trama e todo o drama vivido por essa mãe solo é tratado com sensibilidade, com um momento que me emocionou bastante.

Leitores sensíveis

Rafael Coutinho esteve na Feira Dente, aqui em Brasília, em junho, e a gente conversou um pouco sobre as mulheres de Mensur. Eu já estava pensando em fazer esse texto (olha o delay, mas aqui está ) e disse que achei diferente do que costumo ler. Então descobri que a coisa toda foi feita de caso pensado, ele reescreveu a história toda depois que começou a ler textos feministas que criticam o uso do estupro como chamariz na ficção. Usou leitores sensíveis para criticar a obra, entre eles sua esposa, e com as críticas alterou o roteiro das mulheres no livro. E posso dizer que isso deu maior densidade e fez com que a história não caísse no lugar comum. Foi um ganho enorme na trama, que continua a ser sobre a vida desses homens, mas conseguiu personagens secundários e cenas incidentais marcantes.

E aqui fica a lição que a gente martela tanto: ter cuidado com os personagens de universos que não são o seu cotidiano, consultar quem vive aquela experiência, torna seu trabalho menos previsível e melhor.

capa de Mensur

Mensur

Rafael Coutinho

Quadrinhos na Cia

Número de páginas: 208

Formato: 18,8x27cm

R$ 54,90

O livro foi uma cortesia da editora


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Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.