Thor Ragnarok : rir de si mesmo é infalível

Taika Waititi Transformou um episódio necessário ao encadeamento de filmes da Marvel e que seria CHATO PARA CARALHO se fosse levado a sério, em algo leve. Fez dele UMA COMÉDIA.

Então vamos lá, vamos falar sobre filmes baseados em Histórias em Quadrinhos. O que todo mundo acreditava ser uma “onda” passageira que começou lá pelos anos 2000, acabou se mostrando um nicho enorme e rentável de mercado que abocanhou ainda  Europa e Ásia, virando um verdadeiro fenômeno que mudou PARA SEMPRE a cultura pop e levou a nona arte a mares nunca dantes navegados.

A ascensão de filmes de super-heróis foi praticamente a TÁBUA DE SALVAÇÃO da Marvel, que se encontrava às voltas com o fantasma da falência na época. Foi criado o MCU (Marvel Cinematic Universe) que praticamente pautou todo essa categoria e acabou criando uma “fórmula”que, aliás, já estava começando a empapuçar o espectador, principalmente depois da saída de nomes de peso como o de Joss Wheadon (tchau, kirido), de sua folha de pagamento, por exemplo. E até porque, ao que parece, uma grande leva de filmes “introdutórios”de heróis, aqueles que serviam para apresentar um personagem  ao grande público, se esgotou por enquanto, e agora o desafio é justamente manter a ligação emocional deste público que já foi cativado por esses protagonistas, através de histórias emocionantes, criativas e memoráveis.

E foi isso que o diretor neo-zelandês Taika Waititi (do ótimo O que Fazemos nas Sombras e Fuga para a Liberdade) fez com Thor Ragnarok. Transformou um episódio necessário ao encadeamento de filmes da Marvel e que seria CHATO PARA CARALHO se fosse levado a sério, em algo leve. Fez dele UMA COMÉDIA.

Thor sempre foi um personagem difícil da Marvel. Enquanto Batman é o personagem mais Marvel da DC, Thor, o deus nórdico do trovão é, com certeza, o personagem mais DC da Marvel. E não pelo fato de ser chato, mas por carregar o peso da história e da mitologia nórdica e suas milhares de ramificações e interpretações em suas histórias. Na verdade, um de seus criadores, o grande desenhista Jack Kirby que junto com Stan Lee criou uma infinidade de personagens, para ambas as editoras, aliás (e outras ainda) publicou histórias do Thor na DC na década de 50, mas ele não emplacou e ele decidiu migrar para a Marvel, dez anos depois. Portanto, sim, ele tem perfil mais DC Comics, que costuma ter mais “deuses e aliens” em seu panteão do que Marvel, isso é fato.

Quando pequena, as histórias do Thor eram as que menos me interessavam. Eram as histórias com as quais eu menos me identificava. Todos aqueles deuses e semideuses com nomes esquisitos e aqueles balões com letras em negrito, itálico e ultraserifadas, sem contar sua fala mega rebuscada – ” AI DE VÓS HUMANOS DESPROVIDOS DE CONHECIMENTO, NÃO SABEIS QUE SOU THOR,ODINSON E ESTOU AQUI PARA DEFENESTRAR O MAL QUE ACOMETE ESTA ESFERA AZULADA A QUAL CHAMO DE MIDGARD?“zzzzzzz serião. Eu não aguentava. Morria de tédio. Pulava as páginas de ação com o Thor.

Quando o MCU apresentou uma releitura de Thor um pouco mais leve, jovial, em Vingadores, um deus incrível meio perdido entre os complicados humanos, mais alinhada com a série de HQ Supremos de Mark Millar, eu gostei deveras. Porém, nenhum de seus filmes até então, fez jus a essa repaginada, até agora.

O que Taika Waititi fez não foi só resgatar essa leveza do personagem, mas sim, aproveitar a veia cômica incrível de seu intérprete, Chris Hemsworth, que foi escancarada para o mundo depois de Ghostbusters, onde todos os cacos de seu texto foram exclusiva e propositalmente criados por ele.

Isso, fora os inúmeros teasers da Marvel, entrevistas e reportagens mostrando que, Hemsworth não era apenas um rostinho e um corpinho e uma coisa linda de morrer, ele era incrivelmente talentoso. era um comediante nato. Ele usou um personagem que já tinha uma forte conexão com seu público e imprimiu nele um toque autoral: uma direção de atores fenomenal.

A história vocês meio que já sabem: Thor está em algum lugar da galáxia e percebe que precisa fazer parte, de alguma forma, de uma profecia que envolve praticamente o apocalipse de seu mundo, Asgard, mais conhecido na mitologia nórdica como o RAGNAROK, que será instaurado por sua irmã mais velha, Hela, a deusa da morte (Cate Blanchett, sempre linda maravilhosa). Para isso, ele tenta obter a ajuda de seu irmão trapaceiro Loki (Tom Hiddleston) que na ausência do pai de ambos, Odin, (Anthony Hopkins) governava Asgard mal e porcamente.

Eis que um acidente com a Bifrost (a ponte que transporta Asgardianos a outros planetas e galáxias) faz com que Thor vá parar em um planeta-arena, uma espécie de planeta-entretenimento onde seu soberano (Jeff Goldblum, INCRÍVEL, HILÁRIO) é um tirano maluco que vive de promover e lucrar com jogos de gladiadores de todos os cantos do Universo, mas que tem entre seus campeões um monstro verde invencível conhecido como….O INCRÍVEL HULK. E sim, Thor e Hulk, que estavam sumidos do universo dos Vingadores até então, se encontram.

Isso também foi outra GRANDE  sacada da Marvel, a de juntar duas sagas longas das HQs cujas adaptações ficariam MUITO CHATAS, em uma só (Ragnarok e Planeta Hulk). Bem, o filme começa mesmo em Sakaar, esse tal planeta, cujo  visual é quase um PERSONAGEM à parte, eu diria. Ele é ultra colorido, com fortes influências de estética videogame, retro wave anos 80, além da pitada ultra psicodélica sessentista de Jack Kirby. Coração de nerd bateu forte. O próprio Taika Waititi disse que suas grandes influências foram filmes trash-cult dos ans 80 como Os Aventureiros do Bairro Proibido, por exemplo.

É neste planeta também que eles encontram a caçadora de recompensas 441, (Tessa Thompson, empoderadíssima, personagem APAIXONANTE, uma das MELHORES DO FILME) entre outros, como o abestalhado idealista Korg (interpretado pelo diretor Taika Waititi), sem contar a presença sempre deliciosa e brilhante de Mark Ruffallo como o Dr Bruce Banner, desta vez com o destaque que sempre mereceu.

O grande mérito de Thor Raganorok, foi usar o humor como metalinguagem. Foi tirar sarro de si próprio. Da Marvel, de toda essa coisa de heróis. Das falas heróicas, poses heróicas, ideais heróicos. Ele é tão pra cima e sarcástico e você fica o tempo todo com aquela sensação de não saber se ele está falando sério ou não. Conhece esse tipo de pessoa? A que tira sarro tão a sério que te deixa em dúvida? Thor Ragnarok é assim.

No mais, tem tudo o que um grande filme de entretenimento familiar, tem: ótima trilha sonora, grandes e MEMORÁVEIS diálogos, MUITA ação cenas muito bem dirigidas de ação, aliás produção impecável (destaque para o CGIs fenomenais de lutas mitológicas e da vista panorâmica de Asgard que finalmente deixou de se parecer com uma versão paraguaia de Eternia (o reino de Masters of The Universe, do He-Man) e ganhou identidade própria.

Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios teve BASTANTE influência no tom de Thor Ragnarok e parece que depois desse sucesso, terá cada vez mais espaço para mudar equipe, sugerir novos nomes e formatos para que as velhas histórias sejam contadas. Por ocasião da edição final deste texto, ninguém menos que Jim Starling (criador do personagem Thanos) acaba de soltar uma nota em sua página no Facebook tecendo MIL ELOGIOS a Vingadores: Guerra Infinita dizendo que será um filme que vai acertar em cheio o coração dos fãs. Bem, agora com a DC tomando rumo no cinema, a Marvel precisou se mexer, se reinventar e rir de si mesma e do mercado, pra mostrar que continua no jogo e que o segredo é respeitar o carinho que os fãs têm com seus personagens, porém, sem ter medo de mudar o que for possível mudar. Thor Ragnarok é prova disso. Um filme delicioso, onde MIL COISAS ALEATÓRIAS ocorrem ao mesmo tempo porém, nenhuma conexão importante com outros filmes deixa de ser mencionada. Merece louros porque inovou, mas manteve a coerência.

Aprecie SEM moderação. Thor Ragnarok, ESMAGA.


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.