O Conto da Aia – o que muda e o que permanece do livro para a série

The Handmaid’s Tale ou O Conto da Aia, na versão brasileira, foi escrito por Margaret Atwood em 1985. A autora, que é natural do Canadá, conseguiu dar origem a uma obra de difícil classificação. Considerada por muitos como uma ficção científica que incide sobre o papel da mulher na sociedade, pode também ser classificada como uma obra de terror (como mostramos nessa lista) ou até mesmo como um romance distópico. Tudo isso devido a uma ambientação muito bem elaborada, que nos insere numa época com elementos que nos remetem ao presente, ao passado e ao futuro, tudo ao mesmo tempo, deixando aquela sensação estranha de familiaridade mesclada ao medo e à perplexidade.

O livro, que já havia dado origem a uma filme em 1990, intitulado no Brasil como A decadência de uma espécie, foi novamente adaptado, desta vez para uma série, considerada uma das melhores produzidas no ano de 2017. Isso porque tanto o livro como a série abordam questões que vêm sendo muito discutidas nos últimos tempos, como a opressão e o silenciamento das mulheres. Assim como outros pontos que fizeram da série a grande vencedora do Emmy de 2017, totalizando cinco prêmios na noite, incluindo melhor roteiro, melhor série dramática e melhor atriz (Elizabeth Moss). Enfim, dá pra sacar que se você ainda não assistiu, está perdendo uma grande obra. Mas caso ainda não tenha se familiarizado com a história (você tá em Marte? kkk) Aqui vai uma breve sinopse:

Em um futuro (passado? presente?) não muito distante, um grupo religioso fundamentalista deu cabo a uma revolução no que hoje seria os Estados Unidos e fundou uma nova forma de sociedade, organizada a partir dos valores tradicionais e do poder em volta da figura masculina. Neste futuro, a taxa de infertilidade é muito alta e a solução encontrada por eles são as Aias, mulheres comprovadamente férteis que são relegadas somente à função de procriar. Na verdade, todas as mulheres tem papéis bem definidos, como esposas, Aias ou Marthas, estas últimas destinadas aos trabalhos de casa, como cozinhar e limpar. Apenas às esposas é permitido ter uma família, que é servida pelas outras mulheres num sistema próximo à escravidão. Bom, neste ponto você já deve ser capaz de imaginar que as Aias são, portanto, as escravas sexuais, destinadas a serem violadas pelos seus comandantes uma vez por mês, a fim de lhe gerar filhos.

As Aias dispostas em fila para demonstrar a submissão e o controle.

Basicamente, é isso. A história em si é muito semelhante no livro e na série, mas existem alguns pontos em que elas se distanciam, que eu gostaria de destacar:

Desenvolvimento da história

O livro é contado como se a personagem principal, Offred (o que significa, em inglês, Do-Fred), estivesse narrando os acontecimentos a partir da sua memória. Por esse motivo, a história não é linear, mas segue as associações que a personagem faz dos acontecimentos entre si, principalmente aqueles mais marcantes. No livro isso é muito marcante e parece ter sido um pouco suavizado na série. Nesta temos a ocorrência da cerimônia, quando há o estupro da Aia pelo comandante, já no primeiro episódio, enquanto no livro isso demora para aparecer. Parece que a intenção é demonstrar primeiramente o funcionamento dessa sociedade, baseada numa rotina rígida e injusta. Por isso, o início do livro pode aparentar ser um pouco lento e sem muito conteúdo, já que se baseia principalmente na rotina da personagem – que é bem monótona se pararmos para analisar.

Mundo subjetivo x Mundo objetivo

Pelo fato do livro ser contado em primeira pessoa, a narrativa inclui muito sentimentos e devaneios que não são e não podem ser transmitidos às pessoas, devido ao contexto de opressão e forte divisão hierárquica em que os sujeitos se encontram. A série consegue demonstrar bem esse ambiente que se instaura durante um governo ditatorial, como o é na história em questão. Qualquer palavra mal colocada, qualquer atitude mal interpretada pode ter consequências fatais. Entretanto, a série transforma muitos dos devaneios em palavras ou em atitudes para que seja mais confortável para o expectador se deparar com essas questões. Como coloquei antes, o livro é muito introspectivo e por mais que a série tenha mantido muito disso, ela ainda adapta boa parte do que é assim posto na obra original. Vejo na série uma Offred que consegue se impor, que consegue se expressar e se relacionar de uma forma muito mais segura, mais rápida e mais determinada. É como se parte dos desejos dela se materializassem. O que não modifica a história, mas nos dá um outro olhar para a personagem. No livro há mais culpa e mais reconhecimento do que ela poderia ter feito e não fez.

relação entre os personagens

Aqui se repete basicamente o que foi dito no tópico anterior. Muito do que no livro é subentendido ou não passa de conclusões que a personagem chega ao conversar consigo mesma, se transforma em ação na tela da TV. Novamente, a história não é modificada, mas você vê os olhares e as palavras não ditas se materializando em relações muito mais explosivas e expressivas. Um exemplo é a relação entre Offred e a esposa sob a qual ela está obrigada a obedecer. Desde o começo a Aia sabe que esta relação não é afetuosa e que ao menor deslize haverá uma severa punição, mas isso é algo que paira no ar, que se sabe apenas de olhar uma para a outra. É como se as palavras fossem extremamente caras e o seu uso devesse ser poupado a todo momento. Transmite-se tudo pelo olhar e ele é suficiente para que se saiba tudo o que é preciso para se manter no seu devido lugar. Talvez essa seja a grande diferença entre uma obra e outra: no livro, há uma incrível submersão no mundo subjetivo da protagonista e fica muito difícil não se identificar com ela.

 

 

Ficha Técnica

Livro: O Conto da Aia

Autora: Margaret Atwood

Editora: Rocco

Ano: 2017

Páginas: 368

 


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.