Sim ou não para a nova roupa das amazonas em Liga da Justiça?

Recentemente, Zack Snyder (Batman vs Superman) divulgou imagens das amazonas no novo filme da Liga da Justiça e as reações nas redes sociais têm sido bem diversas.
Na busca por “amazons outfit” (Roupa das amazonas) no Twitter, os resultados trazem argumentos favoráveis, vindos de homens e mulheres, dizendo que não há nada de mais, que se trata “apenas” de uma obra de ficção…
Entre os argumentos contrários, em sua maioria vindo de mulheres, existe a sensação de retrocesso quando comparamos com o uniforme usado por elas no filme solo da Mulher-Maravilha.

“Vocês experimentaram perguntar às Amazonas se elas acharam a fantasia tão sexy assim? Ou estão apenas tentando fazer com que isso se encaixe em suas narrativas? Porque pra mim, elas parecem ter amado a nova roupa.”

Bom, quem acompanha o Minas, sabe que não existe “apenas” uma obra de ficção quando se trata de produtos de uma indústria cultural que, além de propagar valores morais e sociais vigentes, também colaboram com a perpetuação de práticas e discursos que diversas vezes sinalizamos serem muito tóxicos para as mulheres.

Por quê? Bom, diante dos escândalos relacionados aos assédios em Hollywood, é possível notar que o cinema tem histórico longo de casos de abusos e as medidas que vêm sendo tomadas em relação aos abusadores e que vêm inspirando que empresas de outros setores façam o mesmo, indicam que certas atitudes não serão mais toleradas, nem pelas vítimas e nem pelas empresas.

Tudo isso acontece não porque finalmente a indústria do entretenimento se conscientizou de que somos seres humanos dignos de respeito, mas porque correspondemos a uma boa parcela do mercado consumidor com voz ativa graças às redes sociais, ou seja, a imagem de conivente com abusos não é boa para o marketing.

E o que a (pouca) roupa das amazonas tem a ver com isso?

A Mulher-Maravilha foi concebida para ser naturalmente sexy, sabemos disso. Assim, a sensualidade é um elemento inerente às amazonas ficcionais. Isso porque ao longo de toda história do entretenimento, foram escritas, produzidas por homens em obras voltadas especialmente para o público masculino, ou seja, durante toda a vida, representadas através do olhar masculino, o tal do “male gaze”.

http://minasnerds.com.br/2017/06/08/licoes-filme-mm/

A naturalização da mulher como objeto é tamanha que em debates e podcasts sobre o filme da Mulher-Maravilha, os homens são incapazes de notar a diferença entre a sexualização da personagem em Batman vs Superman, dirigido por Snyder, e a direção de câmera de Patty Jenkins, que privilegia aspectos mais humanos e reais das mulheres em vez de dispô-las como mercadoria para a apreciação masculina. Grande parte dos espectadores masculinos não considera que a personagem tenha sido sexualizada quando dirigida por Snyder, embora essa seja uma constatação óbvia para o público feminino. Isso ocorre porque ao longo de toda história fomos acostumadas a ter nosso valor associado quase que exclusivamente à nossa aparência e à nossa capacidade de gerar interesse sexual masculino.

Essas representações, que datam de longa data, indicam o que muitos pesquisadores afirmam sobre vivermos em uma sociedade pornificada, onde o corpo da mulher é tratado como mercadoria. Nesse sentido, a produção cultural tem grande peso na forma como nos enxergamos na sociedade e sobre como a sociedade, especialmente os homens, enxergam as mulheres. Nunca é “apenas” um fime, “apenas” uma série, “apenas” uma HQ: são produtos culturais inseridos em um contexto em que a realidade e a ficção interdialogam e mediam nossa interpretação do mundo.

 

Por isso, quando uma equipe de produtores resolve diminuir as roupas de personagens femininas a praticamente um terço de seu tamanho original, a quem isso serve? Mesmo que as atrizes estejam celebrando a possibilidade de exibir mais seus músculos conquistados à base de muitos exercícios de crossfit, a pergunta é: porque nos satisfazemos em ser reduzidas a objetos apenas para a apreciação masculina? Será que a única forma de ascendermos a certos espaços é por meio da aceitação desse papel?

E não estou dizendo que mulheres que se vangloriam de seus belos corpos estão erradas. Esta não é nem de longe a questão. A questão é justamente se mulheres conseguiriam ascender a certas posições e espaços se não fosse pelo que uma matéria chamou de capital erótico? Será que é isso mesmo que queremos? Sermos reduzidas a corpos que servem de adorno para satisfação sexual masculina?

 

Sei que para muitas e muitas mulheres a resposta ainda é sim. Há momentos em que talvez esse seja um desejo real, mas será que apenas isso? Será que um ser humano é feliz sem explorar seu potencial ao máximo?

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/11/internacional/1510423180_056582.html

Betty Friedan, autora do clássico feminista A mística Feminina, garante que não: depois de anos de pesquisa em todo território americano, durante as décadas de 1950 e 1960, colhendo depoimentos de mulheres de diversas faixas etárias e classes sociais, apontou que o número de mulheres deprimidas ou que haviam tentado suicídio havia aumentado assustadoramente após o retrocesso (backlash) ocorrido nos EUA. De acordo com sua pesquisa, o motivo para insatisfação de grande parte das mulheres era justamente o fato de que. ao serem reduzidas ao papel único de dona-de-casa, foram podadas de seus sonhos, aspirações e da possibilidade de se realizarem por meio de suas vocações. Já imaginou? Você ser limitada a um único papel sem poder escolher o que quer ser, porque homens decidiram o que você deve fazer com seu corpo, com sua vida? Pois Margaret Artwood imaginou e a perspectiva não é nada boa, basta assistir ao Conto da Aia, série homônima do livro de Artwood.

Portanto, vale lembrar que não é apenas um filme, apenas uma roupa. É muito mais do que isso: ao diminuir drasticamente a roupa das amazonas, os produtores estão, mais uma vez, nos dizendo qual é nosso papel nas narrativas. Pense nisso!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.