A sutileza do feminismo de Margaret Atwood em Vulgo Grace

Margaret Atwood é uma escritora canadense, também autora do fenômeno de 2017, Handmaid’s Tale, ou O Conto da Aia, em português. Em Vulgo Grace, ela se baseia numa história real para dar vida à Grace Marks, uma criada do século XIX que nasceu na Irlanda e migrou para os Estados Unidos ainda adolescente com a família, em busca de uma vida melhor, um recomeço. Já no percurso de navio Grace perde sua mãe, morta por algum tumor no abdômen, o que a deixa sozinha com os irmãos e um pai alcoólatra e violento.  A partir daí as coisas só pioram e vão culminar na sua condenação em prisão perpétua por assassinar seu patrão e a governanta da casa em que trabalhava, com requintes de crueldade.

Tudo isso nos é apresentado no livro e na série, produzida pela Netflix, que leva o título original da obra, Alias Grace, já como premissa para o início da história. A intenção da autora foi que tivéssemos contato com Grace Marks como prisioneira condenada e como assassina implacável, para então começarmos a conhecer a fundo sua história e sua trajetória. Nesse sentido, o livro e a série são muito parecidos, com as diferenças que apresentamos aqui em relação à adaptação de Handmaid’s Tale: a autora tende a desenvolver a história de maneira mais lenta no livro, com um foco acentuado no mundo subjetivo da personagem e com relações sociais marcadas pelo silêncio e pelo subentendido.

Em Vulgo Grace a narrativa não é linear, mas acompanha o processo de rememoração da personagem, incitado por um jovem psiquiatra contratado para elaborar um parecer sobre a sua saúde mental. Assim, temos tanto o que Grace relata, quanto o que omite, misturando elementos do seu desejo e do que a sociedade espera de uma mulher. Nesse contexto, o psiquiatra tem um papel importante, já que ele é o elemento neutro que apenas espera conhecer Grace, independente da sua inocência. Mas, ainda assim, a carga moral que recai sobre ela a impede de ser espontânea, de expressar realmente suas opiniões, seus temores e seus amores.

Talvez seja essa a genialidade desta obra, o poder de expressar as amarras sociais impostas às mulheres desde séculos passados, mas de uma maneira muito sutil. É como algo que você lê ou escuta e te afeta de alguma forma, mas você precisa pensar duas vezes para perceber o que realmente aquilo significa. E isso não somente com relação às mulheres, mas também nas relações de classe, já que Grace é pobre e deve servidão absoluta aos seus patrões. E o que nos afeta, é que ela realmente se esforça o tempo todo para alcançar esses padrões. Ela realmente quer atender ao que esperam dela e fica a nosso critério decidir se ela consegue isso ou não.

Nesse ponto você já deve estar se perguntando se ela realmente é uma assassina dissimulada ou simplesmente alguém que foi condenada injustamente. É o que todos ao redor dela se perguntam, exceto a autora. Para Margaret Atwood, acredito que Grace Marks é uma pessoa, com uma história muito peculiar, que pode nos fazer refletir sobre muitas questões sociais que estão presentes no nosso cotidiano ainda hoje. Se você, como leitor ou expectador, quiser fazer o julgamento final, já é uma escolha sua. Talvez a verdadeira questão seja perceber que nós temos juízes demais e empáticos de menos.

 

 

Ficha técnica

Livro: Vulgo Grace

Autora: Margaret Atwood

Editora: Rocco

Ano: 2017

Páginas: 512


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.