O que um cabelo crespo tem pra te contar?

“A minha mãe cortou-me o cabelo pela primeira vez aos seis meses. O cabelo, que segundo vários testemunhos e escassas fotografias era liso, renasceu crespo e seco.” Assim a escritora portuguesa Djamilia Pereira Ribeiro  inicia o livro Esse Cabelo. Alisado, longo, curto, trançado, preso ou solto, um cabelo crespo passa por muitas mudanças, assim como a pessoa que o carrega. O livro de Djamilia trata da relação relação com identidade e aceitação com a qual tantas de nós nos identificamos.

Ribeiro é angolana de nascença, e mudou-se para Portugal ainda criança. Em Esse Cabelo ela mistura digressões e elementos biográficos, fala de racismo, ancestralidade, feminismo e, claro, de seu cabelo. No livro a história da protagonista Mila e a da própria Djamilia, se misturam. O cabelo funciona como fio condutor para contar mudanças que não existiam apenas no topo da cabeça mas também refletiam em seus sentimentos e dúvidas.

Djamilia Perreira Ribeiro na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) 2017 | Crédito: Reprodução YouTube

A relação da protagonista com seus fios vai desde seu primeiro corte de cabelo aos seus atuais dilemas de pertencimento e identidade. Logo nas primeiras páginas nos deparamos com a seguinte frase  “A casa assombrada que é todo o cabeleireiro para a rapariga que sou é muitas vezes o que me sobra de África e da história da dignidade dos meus antepassados.”.

A partir daí, ela conta como passava horas sentada em diferentes salões de beleza para “dar um jeito” em seu cabelo. Sem saber como cuidar da “juba” ou  ela foi de lugares abafados, com cheiro de produtos químicos de procedência desconhecida, ao tapete da casa de trançadeiras. Também usou seus fios ao natural, em idas e vindas que acompanharam carnavais e visitas a familiares.

“A família a quem devo este cabelo descreveu o caminho entre Portugal e Angola em navios e aviões, ao longo de quatro gerações, com um à vontade de passageiro frequente que, todavia, não sobreviveu em mim (…)”.

A relação de Mila com o cabelo personifica o preconceito estético com o qual ela lida durante toda a vida. Muitas vezes, o desconforto com seu cabelo aparecia dentro da própria casa. Frequentemente, a protagonista via seu cabelo ganhar personalidade e se tornar parte de uma conversa entre ela e sua avó como se fosse alguém presente no local, e não somente parte de quem ela é:  “A minha avó branca (…) perguntava-me pelo cabelo ‘Então Mila, quando é que tratas esse cabelo?’ O cabelo então era distintamente uma personagem, um alter ego presente na sala.

Mila fala também da herança de sua família metade angolana e metade portuguesa. Os avós paternos da protagonista, com quem ela passou a maior parte de sua infância, são portugueses e carregam traços de ascendência judia, que ela vê se manifestar nos rostos de suas primas. Sua mãe, mora em Luanda e  passa o ano transitando entre Angola e Portugal para fazer passar tempo com Mila. O que rende uma série de passeios e uma caixa de lembranças destinadas apenas às visitas esporádicas da mãe à menina.

Ao contar as histórias que permeiam sua família Mila passa a impressão de folhear um grande álbum de fotografias, dando significado às histórias e rumores que constroem cada personagem. O passado de sua bisavó em Luanda, a história de seu pai até chegar à Portugal, o destino de seus avós maternos, todas essas vivências se relacionam de alguma forma com os dissabores e as descobertas  que a protagonista encontra ao amadurecer.

Ela fala sobre como aprendeu a usar turbantes, a fazer penteados, como encontrou outras cacheadas e crespas que passaram pela mesma situação e que têm dilemas similares Apesar de curto, Esse Cabelo apresenta passagens complexas e os pensamentos que Ribeiro explora podem necessitar de uma segunda leitura para serem bem compreendidos.

Esse Cabelo – A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras

Djamilia Pereira de Almeida

Editora Rocco

R$ 29,69

 


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