Políticas: mulheres que fazem cartuns, charges e muito mais

Algumas coisas são bem óbvias, mas mesmo assim precisam ser reforçadas, porque o senso comum determina o lugar das pessoas de um jeito bem tirano. “Azul para menino, rosa para menina”, a gente sabe que pode usar qualquer que não vai acontecer nada, talvez alguém encher o saco. “Não tem mulheres fazendo quadrinho, cadê?”. Daí a gente faz uma lista gigante (que tá em andamento ainda, só paramos um pouquinho). E agora surge a página Políticas , porque mulheres fazem quadrinhos sobre política também, claro.

“A partir de articulações entre diversas artistas, foi constatada a ausência de mulheres em espaços dedicados às charges políticas. A ideia de que mulheres não desenham charges ou não se interessam por política ainda é bastante forte no inconsciente coletivo, quando na verdade, sabemos que mulheres chargistas que atuaram nos mesmos veículos e com a mesma proficuidade que autores renomados, apenas não tiveram o mesmo prestígio e visibilidade. Basta abrir o jornal e ver quantas mulheres têm suas reflexões e opiniões publicadas”, elas explicam na sua apresentação .

Mas quem são elas? A página Políticas é um projeto das quadrinistas Thaïs Gualberto, Aline Zouvi, Carolina Ito e da pesquisadora (e MinaNerd) Dani Marino, para oferecer um espaço para cartuns, charges e tiras feitos por mulheres. E eu conversei um pouquinho com elas sobre isso:

Mariza Dias Costa (SP)
Uma das poucas mulheres que conseguiram entrar na grande imprensa fazendo ilustrações políticas. Ela iniciou sua carreira nos anos 70, trabalhou no Pasquim e publica até hoje na Folha de S. Paulo.

 

Existe um estereótipo de que mulheres fazem quadrinhos intimistas ou fofinhos. Qual a força das mulheres nos quadrinhos políticos no Brasil?

Thaïs Gualberto – Os quadrinhos de política são considerados um ambiente mais direto, fulminante, seco, crítico, características “não femininas” e por isso tendem a achar que as mulheres não têm “tino”, “talento” para abordar assuntos políticos. Mas visitando algumas páginas na internet você vê essa teoria cair terra abaixo, com várias produções ácidas e certeiras no momento de se opor a questões da política e da sociedade. Aparentemente essa é uma das últimas barreiras que precisamos derrubar: que mulheres não fazem, não se interessam ou não são capazes de fazer charges, cartuns e histórias em quadrinhos com teor político.

Carol Ito – A gente ainda está entendendo esse universo, já que a atuação de mulheres cartunistas na grande imprensa sempre foi de exceção, não conquistou o mesmo reconhecimento dos grandes nomes da HQ política no Brasil. Sobre os estereótipos, temos recebido trabalhos com estéticas e temas bem diversos, a maioria está longe do fofinho. Mas também não há restrições contra o fofinho, desde que o trabalho traga uma reflexão crítica sobre a realidade.

Aline Zouvi – A força das mulheres nos quadrinhos políticos brasileiros ainda não é totalmente sentida pelo público (algo que podemos notar pela simples necessidade de criar nossa página), mas com o empenho de pesquisadores e divulgadores de autoras, esperamos que este trabalho (cuja força existe, desde os quadrinhos de Pagu até a atualidade) seja cada vez mais reconhecido.

Dani Marino –  Não acredito que existam estereótipos. Na prática e na convivência com as artistas, o que percebo é que a maioria é extremamente versátil. Como qualquer profissional da área, conseguem trabalhar com diversos temas, ainda que algumas tenham preferência por temas específicos como política, cotidiano, terror…

Quanto à força, mulheres como Mariza, Ciça Pinto e Crau da Ilha, já faziam charges e tiras políticas na mesma época em que os nomes mais conhecidos se destacaram no meio. Porém, nunca tiveram a mesma visibilidade. É importante que tenhamos uma diversidade em todos os tipos de produção artística, pois o olhar sobre a política não é algo homogêneo, compartilhado por todos da mesma forma. Assim, é importante que mulheres falem de política e toquem em assuntos que nem sempre os homens têm a mesma sensibilidade, simplesmente porque alguns assuntos não os dizem respeito, como o que está acontecendo com a PEC sobre criminalização do aborto.

Maíra Colares (Motoca.)

Por que é importante organizar esse conteúdo produzido por mulheres em uma página?

Aline Zouvi –  Tudo se resume à questão da visibilidade: é preciso organizar e reunir cartuns e quadrinhos políticos feitos por mulheres brasileiras para que as pessoas saibam que esta produção existe, e é frequente e em estilos e técnicas variadas. É bem simples.

Dani Marino – Justamente porque ainda é recorrente a ideia de que mulheres não falam de política, achamos necessário fornecer um espaço que reúna essas mulheres, para acabar de vez com a desculpa de que elas não são chamadas a participar de salões de humor ou antologias porque não produzem. A exemplo do que já fazia o Lady’s Comics e o Minas Nerds com as listas de mulheres quadrinistas, agora temos um espaço onde as artistas podem expor seus trabalhos sobre um assunto que muita gente nem sabia que elas produziam.

Carol Ito – O objetivo do Políticas é justamente conhecer os trabalhos das minas que estão produzindo cartuns, charges e tiras políticas e trazer a público, oferecendo um espaço acolhedor. É uma curadoria que serve para que os profissionais da imprensa e do mercado editorial tenham acesso a esses quadrinhos, já que, supostamente, é tão difícil encontrá-los nas redes.

Thaïs Gualberto – Chegou um momento em que as quadrinistas feministas do Brasil perceberam que se sentiam que não há espaço para elas, devem criar seus próprios espaços e o Políticas surgiu com essa proposta, reunir esse conteúdo político que vem sendo produzido, mas que muitas vezes é pouco conhecido, reproduzido. Existe muito conteúdo que merece mais divulgação, exposição e por mais que o Políticas ainda seja uma plataforma pequena, queremos contribuir com a disseminação desses trabalhos.
Outro aspecto que acho importante é o de gerar uma demanda por esse tipo de tema. Muitas mulheres não encontram oportunidades ou não se enxergam trabalhando exclusivamente com quadrinhos – isso também atinge os homens, claro, mas acredito que em um nível menos dramático, já que eles encontram um cenário favorável –, então, acabam se dividindo em inúmeras outras tarefas para sobreviver. Nesse contexto, produzir quadrinhos políticos pode se tornar uma tarefa árdua. Pensamos que oferecer um espaço para publicação é uma forma de incentivo para que as mulheres continuem produzindo quadrinhos sobre política.

Por Carol Ito do Salsicha em conserva.

Boa parte das criadoras da páginas fazem cartuns e quadrinhos políticos. Qual a dificuldade de circular com publicações sobre esse tema por ser mulher?

Dani Marino –  Até então, o que percebemos é que a visibilidade dada a elas e os espaços não eram os mesmos que destinados aos colegas do sexo masculino. Vamos poder avaliar como essa visibilidade muda na medida em que mais pessoas conhecerem o projeto.

Aline Zouvi – Creio que seja a mesma dificuldade com relação a qualquer outro tipo de publicação, científica ou artística, feita por mulheres. Como você disse na primeira pergunta, há este estereótipo da mulher que só faz quadrinho autobiográfico, fofo, sentimental. Toda mulher pode fazer quadrinho autobiográfico, fofo, sentimental se quiser, e podem ser quadrinhos incríveis. Mas já estamos cansadas de bater na tecla de que mulher pode fazer qualquer tipo de quadrinho, inclusive o político. Creio ser mais produtivo mostrar o trabalho de mulheres cartunistas, contribuir com a visibilidade do trabalho delas.

Carol Ito – O Alan Moore tem um texto publicado na revista The Daredevils, de 1982, que traz uma reflexão interessante. Conheci o ensaio lendo a revista argentina Clítoris. Ele traz um depoimento que diz que as mulheres não são incentivadas a serem irreverentes, sarcásticas, engraçadas, padrões associados ao trabalho de um cartunista político. O padrão é incentivar a docilidade, o silêncio, desde a infância. Embora muitas mulheres tenham se dedicado aos quadrinhos políticos, ainda são minoria. Com a desconstrução estrutural do machismo, o que vai influenciar a performance de gênero, talvez possamos pensar em uma situação igualitária.

Thaïs Gualberto – É mais difícil para algumas pessoas aceitar mulheres que se pronunciem com assertividade, que apresentem um pensamento crítico que muitas vezes pode se chocar com o de outras pessoas, principalmente os homens. Como muitos desses trabalhos trazem temáticas feministas, a rejeição acaba aumentando, porque ainda há muito machismo no meio e não é agradável quando catucam o nosso calo, né?

Thaïs Gualberto (Kisuki)

Vocês têm recebidos muitos trabalhos? Pretendem dar outros desdobramentos a esse projeto?

Carol Ito – Já temos trabalhos de 13 artistas diferentes para postar na página. Quando tivermos um volume legal de trabalhos, a ideia é transformar em uma publicação impressa. Talvez em parceria com alguma editora ou auxílio de edital. Estamos recebendo trabalhos incríveis, incluindo de cartunistas importantes como a Mariza Dias Costa.

Thaïs Gualberto – Nesse primeiro momento fizemos alguns convites às quadrinistas que publicam trabalhos no perfil que gostaríamos de ter na página. Agora estamos abertas para receber as obras das autoras que tiverem interesse em contribuir, brasileiras ou não. Mas tudo em português.

Dani Marino – Os trabalhos estão chegando aos poucos e os desdobramentos virão com os resultados que tivermos com a página, mas a ideia é que tenhamos o maior alcance possível e que os trabalhos circulem por diversos meios.

Aline Zouvi – Felizmente há muitas colaborações, e quem ainda não mandou cartuns/tiras políticas pode mandar! Talvez este projeto se desenvolva, mas os planos ainda estão sendo elaborados

Se quiser publicar na página, envie sua charge, cartum ou tira para politicashq@gmail.com.

Acesse a página Políticas no facebook: https://www.facebook.com/politicashq/

 

Thais Linhares (Grimoire) (RJ) Participa do coletivo Revista Vírus, Periquitas Quadrinhos Feministas e como voluntária do DDH – Instituto de Defensores de Direitos Humanos, onde atua na comunicação e educação em direitos humanos. Prêmios recentes como ilustradora: White Ravens 2015 e Jabuti 2016.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.