O que a venda da FOX representa para a diversidade na cultura pop?

A aquisição da FOX pela Disney, em um acordo no valor de US$52.4 bilhões, representa um dos maiores negócios da indústria do entretenimento. As especulações sobre os negócios bilionários já agitavam o meio pop/nerd há algum tempo antes do anúncio oficial e, entre as diversas teorias e receios que surgiram, um deles diz respeito à diversidade cultural nas futuras produções da Disney.

Muitos fãs da Marvel vibraram com a possibilidade de filmes que não foram sucesso de bilheteria, pudessem ser refilmados e de que personagens de franquias como X-Men, que não podiam participar de certas histórias devido ao conflito dos estúdios e direitos sobre estes personagens, pudessem então participar dos novos filmes, possibilitando maior fidelidade em relação aos arcos conhecidos nos quadrinhos.

Ainda assim, considerando que a Disney é uma indústria voltada principalmente para o entretenimento familiar, outros fãs passaram a ter receio de que o acordo pudesse ameaçar a essência de personagens cujas personalidades não condizem com o alinhamento “filosófico” da nova casa.

Para os analistas consultados pela revista Forbes, o impacto desse acordo será enorme e será sentido por muito tempo na indústria do entretenimento. Alguns, são bem pessimistas em relação a isso, dizendo que não há vantagens para os consumidores, como afirma Paul Verna, do site eMarketeer. Para ele, o acordo significa menos opção de escolhas e preços mais altos, uma vez que toda distribuição e conteúdo serão decididos a partir dos parâmetros de uma só empresa.

Já o CEO da FOX, Robert Iger, que continuará no cargo até 2021, afirma que a aquisição da empresa pela Disney, reflete uma demanda de consumidores por uma maior riqueza de diversidade em suas experiências e que os estúdios Disney poderiam fornecer.

O receio de alguns fãs é justificado quando lembramos que os X-MEN foram criados como uma forma de lutar contra a falta de representatividade de certos grupos sociais nas HQ. Nesse sentido, produções como um filme solo da X-23, por exemplo, menina latina ou outras nuances da diversidade exploradas por essas histórias, podem ser comprometidas. No vídeo abaixo Stan Lee confirma sua versão sobre o fato de X-MEN terem papel fundamental quando o assunto é a diversidade, por isso, antes de mais nada, é preciso compreender a razão de seguirmos falando em sua importância.

 

Independentemente das especulações, por que a preocupação com a diversidade das representações é um tema ainda recorrente e preocupa quem trabalha com cultura pop quando o assunto é esse mega acordo?

TODAS as produções culturais e manifestações artísticas, sociais, intelectuais, profissionais, científicas… estão inseridas em um contexto, ou seja, qualquer análise que não considere o contexto onde uma obra é produzida, corre o risco de ser extremamente superficial. Por isso, é preciso entender algumas coisas para que possamos apreender a real importância de convivermos com a diversidade.

A primeira delas é a tecnologia. A velocidade com que os avanços tecnológicos ocorrem tem causado impactos significativos em nossa sociedade. Os conceitos e convenções que garantiam a nossa convivência em grupo não podem mais ser aplicados ao contexto que vivemos hoje, pois os estudos sobre cultura feitos até então, se baseavam em uma ideia de identidade nacional e valores que circulavam dentro de um determinado território.

Esses territórios não existem mais! Ao menos não da forma como foram concebidos, uma vez que a globalização e o alcance da internet conseguem ultrapassar quaisquer barreiras físicas e geográficas, possibilitando que a mediação digital de nossas ações seja onipresente. Como assim? Hoje em dia não é possível prever o alcance e as implicações de nossos discursos propagados na internet. Ainda que tenhamos a ilusão de que nossas redes sociais caracterizem uma extensão de nossa vida privada, a verdade é que suas consequências atuam em âmbito público. Assim, a realidade é que não fomos preparados para lidar com essas condições. Fomos educados em uma sociedade pautada em conceitos que se aplicavam a um contexto que não existe mais.

Em ambientes cujos limites são facilmente observados, teorias sobre a hegemonia cultural fazem todo sentido. De acordo com Gramsci¹ e outros estudiosos de cultura, a produção cultural – isso também se aplicaria a todo tipo de expressão científica, social – atua no sentido de perpetuar um discurso hegemônico produzido por uma minoria dominante, cujo principal objetivo é a manutenção de um estilo de vida considerado adequado por essa minoria, a manutenção de um status quo, onde um pequeno grupo se beneficia da ignorância e do trabalho de uma massa que não sabe que é manipulada.

O resultado dessa hegemonia é uma produção padronizada onde valores são transmitidos e assimilados como sendo os únicos possíveis, o que no ocidente significa que a produção de conhecimento foi transmitida a partir do que homens brancos heterossexuais de classe média e alta consideravam apropriado. Assim, é compreensível porque grande parte das narrativas abordem feitos e problemas desses homens, colocando qualquer pessoa que for diferente dessa constituição como inferior, diferente, segregada…

Esses valores nos têm sido transmitidos há séculos e nós os interiorizamos de tal forma, que nos tornamos uma sociedade extremamente machista, homofóbica e racista. Prova disso foi o experimento feito pela Microsoft² com um robô que em menos de 24 horas de interação social na internet, se tornou exatamente reflexo dessa sociedade que mencionei, reproduzindo um discurso conservador, beirando o nazismo.

Porém, com a globalização e o constante avanço tecnológico, os contextos locais, regionais e nacionais passaram a sofrer os impactos dessas mudanças, possibilitando que outras teorias ganhassem espaço. Essa é a segunda coisa que precisamos saber: a cultura passou a ser observada sob o prisma do interculturalismo, conceito que aponta para o fato de que a cultura é composta de uma pluralidade de representações que vão muito além das estabelecidas socialmente e convencionalmente.

Isso significa, inevitavelmente, um choque, um conflito, afinal, após séculos entendendo que os valores que nos foram transmitidos culturalmente na verdade representam apenas uma pequena parcela de nossa sociedade, teríamos que aprender a assimilar e nos adaptar ao DIFERENTE e isso pode ser assustador para algumas pessoas.

Então, o que temos? Por volta dos anos 60, principalmente nos Estados Unidos, movimentos sociais ganharam força e visibilidade nas mídias da época. Esses movimentos passaram a questionar uma série de coisas, desde políticas públicas a direitos básicos que não lhes eram assegurados. Desde então, com o maior alcance das mídias e o advento da internet, aqueles que não se viam representados e que sempre foram silenciados, apagados ou simplesmente ignorados nas produções artísticas, científicas e intelectuais, passaram a reivindicar seu espaço.

Ou seja, o discurso que nos dizia que essas pessoas não existiam ou que não eram vistas porque não eram “competentes o suficiente”, o discurso meritocrático que prevalecia até há pouco tempo, se revelou um grande engodo na medida que pesquisadores foram descobrindo cientistas, artistas, escritores que foram extremamente relevantes, mas que foram convenientemente apagados, para que uma cultura hegemônica se estabelecesse.

No entanto, a crença de que certos grupos têm valor inferior a outros, e que por isso não deveriam ter suas manifestações consideradas, é justamente o que perpetua um pensamento conservador altamente nocivo para nós enquanto sociedade, pois é esse discurso que justifica genocídios como os ocorridos durante o Holocausto.

Não só isso, a convivência com a pluralidade dos discursos nos torna seres humanos melhores, pois é por meio da superação das adversidades que amadurecemos e nos desenvolvemos enquanto pessoas. Ter acesso a discursos variados também possibilita que sejamos mais criativos, pois nosso universo se amplia na medida que nos são oferecidas novas perspectivas, novas janelas por onde podemos observar a realidade, que é uma realidade plural³.

Um exemplo de como somos favorecidos pelo contato com o diferente é o estudo citado pelo pesquisador Ricardo Sales sobre diversidade nas organizações. Em seu texto4, Ricardo aponta os resultados alcançados por equipes em um determinado experimento, demonstrando que as mais bem-sucedidas foram aquelas que apresentavam características relacionadas à convivência com a diversidade. Responsável por uma agencia de consultoria que prestas serviços a grandes empresas como a Skol – sim, a nova campanha tem o dedo dele, Ricardo está prestes a concluir sua pesquisa de mestrado sobre políticas de diversidade e comunicação.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche é hoje uma das maiores representantes da diversidade que precisamos no mundo. Ativista feminista e dos direitos humanos, em um dos eventos que participou falou sobre os perigos da narrativa única. Entre outras coisas, um ser humano que cresce acreditando que há apenas uma versão de um fato ou que a sua perspectiva é a única possível, não é um ser humano completo no sentido de que ele não é capaz de lidar com contrariedades. Pessoas que não conseguem aceitar o outro, o diferente, são pessoas intelectualmente mais limitadas, uma vez que, ao se privarem de conhecer outras perspectivas, se privam de ativar processos cognitivos relacionados à criatividade e imaginação, fato que afeta diretamente sua resolução de conflitos. Não à toa, os profissionais brasileiros, quando comparados a outras nacionalidades, são considerados mais criativose adaptáveis, afinal, nossa cultura é resultante de uma grande mistura.

Sendo assim, por mais que alguns grupos ainda se mostrem resistentes às mudanças, eles só o fazem porque gozam de privilégios que não querem abrir mão e porque suas limitações os impedem de vislumbrar as vantagens de aceitar que o mundo É DIVERSO e que não há nada que se possa fazer quanto a isso. Questões ligadas à representatividade dos grupos minorizados e à diversidade serão cada vez mais discutidas até que chegue o dia que não seja mais preciso.

Portanto, é preciso estarmos atentos para diariamente para que espaços conquistados às custas de tanta luta, não sejam perdidos em acordos bilionários em nome do lucro que certos grupos podem representar em detrimento de outros. Se a compra da FOX pela Disney pode ou não representar menor diversidade nas produções que virão a seguir, cabe a nós continuar promovendo debates e reflexões no intuito de que as mudanças não passem despercebidas, certo?

Sigamos!

 

Referências:

https://www.forbes.com/sites/danafeldman/2017/12/15/what-the-disney-fox-52-4b-merger-means-to-the-consumer/#2a11ce0517c8

1 – http://www.saraiva.com.br/hegemonia-e-cultura-gramsci-3-edicao-1993898.html

2 – http://revistagalileu.globo.com/blogs/buzz/noticia/2016/03/microsoft-criou-uma-robo-que-interage-nas-redes-sociais-e-ela-virou-nazista.html

3 -https://www.scientificamerican.com/article/how-diversity-makes-us-smarter/

4 -https://www.linkedin.com/pulse/o-segredo-do-trabalho-em-equipe-ricardo-sales

5 -http://www.saraiva.com.br/cultura-e-diferenca-nas-organizacoes-reflexoes-sobre-nos-e-os-outros-2792480.html

http://www.iluminerds.com.br/precisamos-falar-sobre-diversidade/

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.