Cosplays negros: ainda estamos nos escondendo atrás de máscaras?

Por: Fernanda Alcântara

Fotos: Daniel Deak/ Galpão de Imagens/ CCXP

 

A CCXP sempre me surpreende. Seja pelo seu tamanho – desde sua última edição, a maior Comic Con do mundo -, seja pelas pautas que você pode discutir a partir do evento. Frequentadora desde a segunda edição, já tive experiência de cobrir comercialmente, e de ir como público e ficar horas na fila para o horroroso Auditório Cinemark. Este ano quis me concentrar na representação negra dos cosplays, que pode não ser uma pauta nova, mas que abre o debate do racismo na cultura pop.

Embora a cultura pop como um todo tenha dificuldade em discutir diversidade, em especial de raça e gênero, a comunidade negra no mundo sempre consumiu muito dos produtos desse universo. Nos quadrinhos, por muitos anos só tivemos dois super heróis negros importantes na Marvel (Pantera Negra e Luke Cage) e John Stewart como Lanterna Verde negro. Nesse primeiro momento, em outros produtos como jogos, RPG, cinema, TV e séries, já não tivemos tanta sorte, mas em todos eles tínhamos exceções – e nelas que nos agarramos.

Por muito tempo, Uhura era a personagem mais importante para uma menina negra tentar fazer cosplay. Personagem da ficção científica Star Trek, Uhura é inteligente e peça fundamental na série, embora os chamados “nerds” só lembrem do capitão James Kirk ou do Spot. Foi interpretada pela atriz Nichelle Nichols na série e por Zoe Saldanha nos filmes da última leva. A franquia se renovou em Star Trek: Discovery, série da Netflix deste ano que, pela primeira vez, teve a personagem Michael Burnham como protagonista da série, uma mulher negra, no comando da nave.

Ainda assim, a franquia mais rentável e com o maior número de cosplays foi sem dúvidas Star Wars. Com o episódio VIII a caminho esta semana, já era de se esperar um número diverso de cosplays de Ray(s), Leia(s), Luke(s), Obi-Wan(s), Darth Vader(s), Stormtrooper(s), afinal, nada mais “Comic Con” do que estes personagens. E foi então que começou meu incômodo com a falta participação de negros na franquia. Embora alguns acreditem que a franquia seja racista nos primeiros seis episódios, como fã da série sempre gostei do Capitão Lando e não defendo esta tese. Assim, acredito que o problema está na outra ponta: não nos produtores, neste caso, mas nos próprios fãs.

Sim, porque mesmo com o episódio VII de Star Wars trazendo Finn como protagonista junto com Ray, não vi nenhum cosplay do personagem. Vi imitações de Poe Dameron, personagem muito bom mas de pouca expressão no filme, mas nada de Finn. E mesmo com a discussão sobre a importância de ter Ray como personagem feminista e forte, encontrei apenas uma menina negra que conseguiu ultrapassar as barreiras e se caracterizar como a personagem. No demais (e o mais assustador), quase todos os Stormtroopers que encontrei no caminho e outros personagens da franquia eram negros.

Porque, então, é tão difícil encontrar cosplays de personagens negros?

Não quero generalizar o público da cultura de pop, mas durante toda a Comic Con pude perceber o quanto este público tem problemas de discutir a questão racial e enxergar o racismo no meio. Enquanto a questão de gênero tem caminhado, mesmo que a passos lentos, na diminuição do machismo nesta cultura, o racismo à brasileira vai se perpetuando enquanto o meio se recusa a discutir estas questões.

E neste ponto da discussão chegamos ao fenômeno Game of Thrones e, antes de entrar nas críticas, é bom deixar claro para a “patrulha nerd” que amo a franquia e reconheço os problemas desta última temporada. Mas do ponto de vista de diversidade, depois de tantas críticas, é notável e gratificante ver como a HBO conseguiu empoderar as personagens femininas e dar relevância aos personagens negros, algo que nunca O Senhor dos Anéis ou Harry Potter fizeram. Não à toa que encontrei pelo menos quatro meninas, com seus lindos cabelos black power, como Misandrei(s) no evento.

A HBO segue ainda com a promessa de dar mais destaque à personagem negra Maeve Millay, interpretada por Thandie Newton em WestWorld. E é sempre bom lembrar que a HBO faz isso não porque é “boazinha”, mas por reconhecimento de uma demanda que exige mais personagens negros para mais produtos para este público. Em outras palavras, é o momento da década de 1950 em que as empresas começam a incluir negros nas propagandas nos EUA por que descobriu a magia do autorreconhecimento nos produtos, algo que a propaganda brasileira ainda tenta entender até hoje.

Ainda falando em franquias, pontuo Harry Potter por ser uma das mais complicadas para se refletir sobre diversidade. Por um lado, os livros e filmes ressaltam valores progressistas, com frases “Se Harry Potter ensinou algo, é que ninguém é feliz vivendo no armário” ditas pela autora. Contudo, a ausência de negros na escolha do elenco sempre me incomodou, uma vez que nenhum professor ou personagem de maior relevância tenha sido colocado como negro.

Os muitos fãs podem até me lembrar de Dean Thomas, namorado da Gina em alguns filmes, mas convenhamos, a maioria nem lembraria se não fosse a escolha de Alfred Enoch, hoje Wes de How to Get Away With Murder. Sei que em “A Criança Amaldiçoada”, continuação da série no teatro, Hermione é negra – e isso bastou para uma onda de racismo por parte dos fãs, apenas confirmando minha tese aqui. Mas também nem culpo (muito) o estranhamento, afinal, é difícil entender que o mundo mágico não é ariano quando temos quase 17 anos de filmes nos mostrando o contrário.

Mas nem tudo é pessimismo em relação ao racismo na indústria do entretenimento, já que temos algumas perspectivas. Uma delas foi a participação do criador do Super-Choque nesta CCXP, Denys Cowan, e encontrei até mesmo um visitante fantasiado do personagem. Os cosplays de Irmão do Jorel, animação brasileira do Cartoon Network, foram um dos que mais me chamaram a atenção pela simplicidade e caracterização do “jeitinho brasileiro” em sua diversidade e miscigenação.

Já o novo Pantera Negra, filme da Marvel com lançamento no começo do ano que vem, promete trazer novos personagens negros para nos inspirarmos. São novos ares para quem está cansado de se esconder em armaduras e máscaras apenas por falta de representação e referencial nos principais produtos da cultura pop. E já que somos a maior Comic Con do mundo, podemos estabelecer de uma vez por todas que é possível fazer cosplay independente da cor da pele.

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Fernanda Alcântara é formada pela Faculdade Cásper Líbero em jornalismo e mestranda em Ciências da Comunicação pela USP. Trabalhou na área de comunicação do Centro de Estudos do Trabalho e Desigualdades (CEERT), ONG voltada à defesa dos direitos humanos. Em 2012, venceu o 24º Troféu HQMix na categoria “Trabalho de Conclusão de Curso/Monografia” pelo livro-reportagem “Traços e Rabiscos nos anos 80 – O trabalho de Henfil na década da transição”. Por quatro anos foi editora-chefe da revista Raça Brasil, a primeira e maior revista voltada ao público afro-brasileiro. Em 2016 foi convidada pelo Consulado Norte-Americano a integrar o “Social Inclusion in USA: International Visitor Leadership Program”.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.