O discurso poderoso de Reese Whiterspoon continua atual

Diante da repercussão dos discursos históricos, que foram proferidos na 75ª edição do Globo de Ouro, e que inclui o backlash de celebridades francesas defendendo o direito dos homens de nos assediar, a fala de Reese Witherspoon no prêmio Glamour de 2015 continua mais pertinente do nunca.

De acordo com a atriz e produtora, acreditava-se que filmes com protagonistas femininas fortes não geravam lucro, o que foi claramente refutado quando os números das bilheterias americanas de 2017 demonstraram que os 3 filmes com maior bilheteria doméstica (EUA) foram Star Wars – Os últimos Jedi, com $580,274,584; A Bela e a Fera, com $504,014,165 e Mulher-Maravilha, com $412,563,408.

E por que isso importa? Bom, considerando que estamos falando de uma indústria, o objetivo principal de sua produção é que seus filmes gerem lucro. As produtoras, dirigidas majoritariamente por homens, assim como os estúdios, finalmente se dão conta que narrativas com protagonistas femininas que fogem do padrão firmado ao longo dos anos, de mulheres frágeis, com poucas falas, são tão ou mais rentáveis que as demais produções, inclusive as de super-heróis consagrados. Isso porque além de correspondermos a metade da população mundial, somos responsáveis pela circulação da economia tanto quanto os homens. No Brasil, as mulheres movimentaram mais dinheiro que os homens no e-comerce em 2016, por exemplo.

De acordo com a lista anual Fortune 500, há dois anos o número de mulheres em posição de chefia nas empresas é o mesmo: apenas 5%. Um número muito maior do que aquele de 1998, quando apenas uma mulher foi listada. Mas ainda assim um número muito baixo.  A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que o percentual é o mesmo no mundo todo: apenas 5% dos cargos de chefia e CEO de empresas são ocupados por mulheres.

No que diz respeito às mulheres na política, enquanto os Estados Unidos possuem 19% do Congresso composto por mulheres, por aqui o número é bem pior: apenas 9,9%. “Como podemos esperar que nossos direitos e necessidades sejam preservados se nós não temos uma representação igualitária?”, questiona Reese Witherspoon.

Por isso, o discurso de Reese parece ter ganhado uma relevância ainda maior após o Golden Globe deste ano e quem assistiu aos filmes produzidos por sua companhia, não tem dúvidas do papel significativo que estas inciativas representam em uma cultura que insiste em nos diminuir, apagar e maltratar.
Time is up, não é mesmo?

Confira a transcrição do discurso, publicado originalmente aqui. Reese menciona  a produção de Big Little Lies, que não só foi sucesso de crítica e público, como também tem sido indicada e ganhado vários prêmios. Se você ainda não assistiu, não perca mais tempo e assista porque é uma das melhores séries que alguém poderia ver.

“Estou muito animada com a quantidade de jovens mulheres aqui. Tudo começou para mim quando eu era nova. Eu tinha 14 anos quando descobri que gostava de atuar, e ainda gosto. Atuar me permite entrar na pele de todos os tipos diferentes de mulheres, e não de uma maneira esquisita como ‘O Silêncio dos Inocentes’, mas de uma maneira que me permite explorar todo o espectro da humanidade. Todas as mulheres que interpretei eram fortes e com falhas, exceto por Tracy Flick [personagem de ‘Eleição’]. Ela era 100% perfeita, mas ela me fez dizer isso. Mas, aos 14 anos, eu também descobri que eu era ambiciosa. Muito ambiciosa. Eu disse isso em voz alta? Vamos falar sobre ambição.

Quero que todo mundo feche os olhos e pense numa palavra suja, tipo muito suja. Agora abram seus olhos. Alguma dessas palavras era ambição? Acho que não. Vejam, eu comecei a me perguntar recentemente por que  a ambição feminina é algo que as pessoas temem tanto. Por que as pessoas têm opiniões preconceituosas sobre as mulheres que realizam algo? Por que isso é visto como algo negativo? Em um estudo da Universidade de Georgetown, em 2005, um grupo de professores pediu aos candidatos para avaliar as ambições masculinas e femininas com políticos. Os respondentes votariam menos em mulheres em busca de poder do que em homens. Eles também acharam que as mulheres ambiciosas queriam cuidar de si mesmas. Eles até reportaram que as mulheres ambiciosas provocavam sentimentos de provocação e desgosto.

Agora, durante minha vida eu sempre estive mais confortável em ser a aquela que as pessoas achavam ser a perdedora. Mesmo que as pessoas achassem que eu não era capaz de fazer algo ou diziam que era impossível, eu sempre encarava o desafio. Eu adorava tocar o impossível. Eu me lembro quando eu tinha 18 anos e aplicava para universidades, e um conselheiro de uma faculdade disse: ‘não se preocupe em aplicar para a Stanford, querida. Suas notas não são boas o bastante.’ Mas eu consegui assim mesmo, eu entrei.

Quando entrei na indústria cinematográfica, eu fazia dramas e os diretores não sabiam se eu podia ser divertida. Então eu fiz uma comédia, ‘Legalmente Loira’, e então por toda minha carreira eu fui estereotipada. Eu fiz comédias e eles não achavam que eu era séria. Fiz dramas e eles não achavam que eu pudesse ser divertida. E conforme envelheci, eles não achavam que eu ainda pudesse ser viável. Então, três anos atrás eu me encontrei num curioso estado na indústria do cinema. Eu me perguntava mesmo como a evolução digital estaria afetando o cenário da produção de filmes e, especificamente, por que os estúdios faziam menos e menos filmes. Então eu comecei a fazer perguntas e decidi me encontrar com cada um dos chefões de diferentes estúdios que eu tinha uma amizade de anos. Cada uma dessas reuniões começou com algo casual, como ‘como vão as crianças?’ e ‘uau, faz mesmo muito tempo desde Johnny e June?’ Ao final da reunião, eu casualmente trazia a pergunta à mesa, ‘então, quantos filmes estão em desenvolvimento com protagonistas femininas?’ E por protagonista, eu não quero uma esposa ou namorada de um protagonista homem. A protagonista, a heroína da história. Eu não encontrei nada, apenas olhares vazios, piscadas excessivas e uma mudança de assunto desconfortável. Ninguém queria responder a pergunta porque era fato de que nenhum estúdio estava desenvolvendo algo estrelado por uma mulher. Apenas um estúdio estava transformando o papel de um homem em uma mulher. E os diretores dos estúdios não pediram desculpas. Eles não precisam se desculpar. Eles estão interessados em lucros e, afinal de contas, eles comandam subsidiárias de grandes corporações.

Mas eu estava boquiaberta. Era 2012 e isso não fazia sentido para mim. Onde estava nossa Sally Field em ‘Norma Rae’, Sigourney Weaver em ‘Alien’, Goldie Hawn em, escolha qualquer filme da Goldie Hawn: ‘Um salto para a felicidade’, ‘Uma Gatinha Boa de Bola’ ou ‘A Recruta Benjamim’? Essas mulheres moldaram meu ideal do que significava ser uma mulher de força, caráter e humor neste mundo. E a minha linda e inteligente filha, que tem 16 anos agora, não vai crescer idolatrando o mesmo grupo de mulheres. Ao invés disso, ela é forçada a assistir várias mulheres talentosas e realizadas vestindo calças de couro, trotando em lindos, mas completamente inviáveis sapatos, virando para o homem protagonista e perguntar sem fôlego, ‘o que faremos agora?’ Sério, não estou brincando. Volte e assista a qualquer filme e você verá essa frase várias vezes. Eu amo fazer perguntas, mas essa é a pergunta que eu mais odeio.

Eu fico apavorada ao ler roteiros que não possuem uma mulher envolvida na criação porque, inevitavelmente, eu chego àquela parte onde a garota pergunta para o cara ‘o que faremos agora?’ Vocês conhecem alguma mulher numa situação de crise que não tem qualquer ideia do que fazer? Quero dizer, eles não dizem às pessoas em crise, até mesmo crianças, para procurar uma mulher em caso de problema? É ridículo que a mulher não saiba o que fazer.

Então, de qualquer forma, depois de ir a esses estúdios e dizer às pessoas que mal há mulheres protagonistas em filmes e de que a indústria está em crise, elas ficaram chocadas. ‘Que horror’, elas disseram. E então elas mudaram de assunto e seguiram com seus jantares e vidas. Mas eu não podia mudar de assunto. Eu não podia virar para um homem e dizer ‘o que faremos agora?’ Esta é a minha vida.

Eu fiz filmes por toda minha vida, por 25 anos, desde meus 14 anos. Era hora de virar para mim mesma e dizer ‘OK, Reese, o que faremos agora?’ A resposta era bem clara. Minha mãe, que está aqui nesta noite, uma mulher sulista muito forte e inteligente me disse ‘se você quer algo feito, meu amor, faça você mesma.’

Então eu abri minha própria produtora, a Pacific Standard Films, com a missão de contar histórias sobre mulheres. E eu estava nervosa, sabe? Eu estava gastando meu dinheiro, o que todo mundo na indústria cinematográfica sempre diz ‘não gaste seu próprio dinheiro com nada.’ Eu fui avisada disso na loucura que seria se a Pacific Standard conseguisse bons roteiros e nós não passaríamos dos nossos primeiros anos nos negócios, porque não há um mercado que compre materiais feitos por mulheres. Mas assim como a Elle Woods [personagem de ‘Legalmente Loira], eu não gosto de ser subestimada. 

Sou uma leitora ávida. Na verdade, sou uma completa nerd de livros, assim como minha produtora e sócia. Então, nós reviramos vários manuscritos e lemos muitas coisas antes de serem publicadas, mas só encontramos dois materiais que pensamos ser certos. Nós os compramos com nosso próprio dinheiro e rezamos para que dessem certo. Ambos tinham mulheres fantásticas, fortes e complicadas no centro e ambos foram escritos por mulheres. E para surpresa, ambos os livros atingiram a primeira posição de bestsellers na lista do The New York Times. Um era chamado ‘Garota Exemplar’ e o segundo era ‘Livre’. Então nós fizemos os dois filmes no ano passado e os dois levantaram mais de meio bilhão de dólares no mundo todo e conseguimos três indicações ao Oscar para as atrizes que atuaram nesses longas. Esse foi o primeiro ano. Contra todas as possibilidades, a Pacific Standard teve um segundo e terceiro ano. Compramos mais cinco livros que foram topo de vendas. No próximo ano faremos dois deles, ‘Big Little Lies’ e ‘A Mais Sortuda’. Temos mais 25 filmes em desenvolvimento e três atrações televisivas, e todos são protagonizados por mulheres de diferentes idades, raças e trabalhos. Algumas são astronautas, outras soldados, algumas são cientistas e uma é até juíza da Suprema Corte. Elas não são boas ou ruins; elas são ousadas, assombradas, perigosas e triunfantes, como as mulheres de verdade que encontramos todos os dias das nossas vidas. Mas nossa empresa não está prosperando apenas porque parece que isso é o certo a fazer. Está prosperando porque filmes protagonizados por mulheres funcionam. Somente neste ano, ‘Trainwreck’ da Amy Schumer, ‘A Espiã que Sabia de Menos’ da Melissa McCarthy, ‘A Escolha Perfeita 2’, ‘Cinderela’ e a franquia de ‘Jogos Vorazes’ fizeram mais de US$ 2,2 bilhões de dólares no mundo todo. Filmes com mulheres no centro não são um projeto de serviço público, são grandes e fazem dinheiro.

Eu acredito que estamos no meio de uma crise em todos as áreas e indústrias. As mulheres são sub-representadas e mal pagas em posições de liderança. E a razão pela qual estamos todas falando sobre isso hoje à noite é porque menos de 5% dos cargos de CEO das empresas listadas na Fortune 500 são mulheres. Somente 19% do Congresso é composto por mulheres. Não é surpresa alguma não termos a assistência médica que merecemos ou a licença maternidade paga ou acesso à educação infantil desde cedo e isso me preocupa. Como podemos esperar que nossos direitos e necessidades sejam preservados se nós não temos uma representação igualitária? Então, isto é o que eu espero: se você estiver na política, mídia, indústria tecnológica, ou trabalhando como empreendedora, professora, construção civil ou educadora, você sabe os problemas que todas nós enfrentamos. Eu suplico a cada uma de vocês que se perguntem: o que faremos agora? Essa é uma grande questão. Há algo na vida que você acha que não consegue realizar? Ou há algo que as pessoas disseram que você não pode fazer? Não seria bom provar que estão todos errados? Porque eu acredito que a ambição não é uma palavra suja. É acreditar em si mesma e nas suas habilidades. Imagine isso: o que aconteceria se nós fossemos corajosas o suficiente e fossemos um pouco mais ambiciosas? Acho que o mundo mudaria.”

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.