Guerra dos Sexos- Um match point no sexismo

Guerra do Sexos (EUA/2017) é um filme dirigido a quatro mãos pela dupla célebre de diretores de grandes documentários musicais John Dayton e Valerie Faris, escrito por Simon Beaufoy (Quem quer Ser um Milionário e Jogos Vorazes) e brilhantemente estrelado por Emma Stone (La la Land) e Steve Carrel (The Office, Pequena Miss Sunshine)

Pra vocês terem uma referência mais conhecida, Dayton & Faris foram diretores do genial “A Pequena Miss Sunshine” de 2006, ganhador de dois Oscars (melhor roteiro e melhor ator coadjuvante para Alan Arkin), o que mostra que a linguagem de ambos é dinâmica, a fotografia é tratada com muito carinho, eles conseguem extrair profundidade e poesia de seus personagens sem cair no dramalhão e é claro, a trilha-sonora é incrível.

Guerra dos Sexos  foi lançado aqui no Brasil em outubro do ano passado, um evento  para o qual a mídia não deu tanta bola. Por que será, não é mesmo?

Bem, talvez porque o plot central do filme fale sobre  o duelo de tênis que foi amplamente divulgado pela mídia em 1973 e  ficou conhecido como “A Guerra dos Sexos” –  entre a tenista Billie Jean King, de 29 anos, e Bobby Riggs, de 55 anos, ex-número um do mundo. Riggs (1918-1995), na época, já aposentado, era um machista autoproclamado, se gabava de ser chamado de “porco chauvinista” e explorava essa alcunha na mídia, elém de dizer  que as mulheres eram inferiores, que não poderiam lidar com a pressão do jogo e que, mesmo na sua idade, poderia vencer qualquer jogadora de tênis.

Recaptulando: 1973, auge da Segunda Onda do feminismo. Os ventos de mudançca estavam agitados, mais ou menos como estão hoje em dia. Denúncias de violência contra a mulher, desigualdade de salários, e revolução sexual feminina pululavam nas manchetes, o Mundo estava em polvorosa. Mulheres estavam ganhando espaço, pavimentando caminho para nós, hoje. E ainda assim existe ainda tanto a ser conquistado!

Como já era de se esperar, atletas mulheres nunca receberam, nem da mídia, e muito menos de patrocinadores e da própria organização de esportes, a mesma atenção e quantias de dinheiro que atletas do sexo masculino recebiam e recebem. Naqueles tempos também existiam torneios ou até mesmo equipes femininas estruturadas e tão bem organizadas como temos hoje em dia.

Logo no começo do filme, Billie confronta Jack Kramer (Bill Pullman) ex-jogador e um dos criadores do grande torneio aberto de tênis americano, conhecido como US Open, exigindo que as equipes femininas participantes  recebessem o mesmo que os homens para jogar. Kramer nega e Billie decide que  vai tirar a equipe feminina do torneio.

Eis que as garotas estavam sem patrocínio e fora do circuito. Foi então que a agente de King, Gladys Heldman (um mulherão da porra vivido por outro mulherão da porra nas telas, Sarah Silverman) fechou um contrato controverso com a Phillip &Morris (sim, a marca de cigarros)  e em 1970, ela e outras oito tenistas assinaram contrato com a recém-criada Virginia Slims Series, uma série de torneios com grande premiação para mulheres.

Naquele tempo , muita gente ainda debochava das conquistas das mulheres (naquele tempo?) e do movimento de liberação feminina. Nesse cenário de contestação, Bob Riggs (Steve Carrel consegue ser ruim em algum papel?) um senhor de 55 anos, ex-campeão de Wimbledon e do US Open, que andava meio esquecido, resolve se autopromover e lançar um desafio às principais tenistas do mundo. Na época, Margaret Court estava à frente de King no ranking e achou que seria bom, em termos de mídia, aceitar ao desafio. Margaret não se considerava “feminista” e não fez isso para provar que Riggs estava errado com relação às mulheres. Muito pelo contrário. Queria mídia pra si, pois Billie Jean ganhava GRANDE destaque  por defender o direito das mulheres no esporte.  Riggs chamou a imprensa em um grande circo midiático e desafiou as meninas a vencerem um “homem com um pé na cova”.

No dia 13 de maio, em Ramona, na Califórnia, Riggs – que era apostador compulsivo, isso é mostrado no filme  – destroçou Court, vencendo por fáceis 6/2 e 6/1.  Ele, contudo, não ficou satisfeito.  Seu “alvo” era Billie Jean, a grande defensora dos direitos das mulheres e do esporte, que não tinha interesse em abraçar a grande bagunça midiática que Riggs criara.

Ademais, também não lhe agradava a ideia de RIVALIDADE entre os sexos. Como toda feminista, Jean queria simplesmente IGUALDADE. Após várias tentativas malsucedidas de Riggs (ele ligava para Jean de madrugada!), ela acabou aceitando, muito por conta deste discurso que Riggs fez, em uma coletiva, e onde Billie Jean sentiu-se pessoalmente impelida a aceitar seu desafio. No entanto, quadruplicou o prêmio,

..”Eu quero provar
que as mulheres são péssimas
e que não pertencem
na mesma quadra que um homem.
Agora, não me interpretem mal,
Eu amo mulheres …
No quarto
e na cozinha.
Mas estes dias,
Elas querem estar em toda parte!
Elas querem
fazer tudo!
Onde vai acabar?
Em breve, nós, amigos, não poderemos ir a um jogo de bola,
não poderemos
ir pescar.
Não vamos poder parar
e tomar uma bebida após o trabalho.
E isso é o que esse toda essa coisa da liberação das mulheres é sobre.
E é preciso parar.”

Como pano de fundo da película, temos as vidas privadas de todos os envolvidos que revelam muito sobre suas personalidades. Riggs estava em processo de separação de sua mulher (interpretada por Elizabeth Shue! Linda, sumida!) onde ela alegava não conseguir mais conviver com a compulsão do jogador por apostas. Steve Carrel é certeiro no papel de Bob Riggs, um verdadeiro fanfarrão americano, branco, cis, hétero, ultradireitista e privilegiado. Uma pessoa incapaz de levar uma simples conversa a sério. Uma pessoa desesperada por atenção e fama.

Já a Billie Jean de Emma Stone, se mostra uma mulher obstinada, forte, focada, que vive para o tênis e que vive para vencer.  Embora tenha sido uma mulher firme, Billie Jean era low profile, não era tão extrovertida, simpática nem engraçada quanto Riggs. O filme também não deixa de abordar a descoberta da sexualidade da atleta, o que mais tarde veio a ser um verdadeiro escândalo traumático na vida pessoal de Billie Jean, culminando em um processo que veio a público e ao fim de seu casamento com o advogado e criador do WTT (World Team Tennis) Larry King (não confundir com o apresentador).

A tenista disse que, quando se deu conta de que era lésbica, quis dizer a verdade. Mas todos a seu redor diziam que, se ela se assumisse gay, poderia perder contratos, patrocínios e até colocar em risco o circuito de tênis feminino que havia lutado tanto para estabelecer. Chegou a sofrer de transtornos alimentares devido a pressão. No entanto, Billie foi a primeira atleta a se assumir lésbica na história do esporte, e  luta até hoje contra a homofobia e sexismo no esporte em geral.

Apesar da versão romantizada que o filme apresenta do romance de King com sua assistente Marilyn Barnett (Andrea Risenborough) na vida real as coisas foram bem controversas. Marilyn expôs Billie Jean muitos anos depois e a processou querendo uma espécie de pensão pelos anos em que viveram juntas em uma batalha judicial que se alongou e causou muito transtorno na vida da atleta. Ela gastou quase toda sua fortuna com advogados.

A “Guerra dos Sexos” foi realizada em Houston, nos EUA, foi um grande evento de mídia, com público de 30 mil pessoas além de mais de 50 milhões de telespectadores em todo o mundo. e ajudou a legitimar o tênis profissional feminino e as atletas de todo tipo de esporte.

King exerceu um papel fundamental para que se findassem as disparidades salariais entre homens e mulheres no esporte, assim como a distribuição dos prêmios nos torneios de tênis, que reservavam quantias maiores a jogadores do sexo masculino. No mesmo ano, o US OPEN tornou-se o primeiro grande torneio de tênis a dedicar a mesma quantia de dinheiro em prêmio tanto para homens quanto para mulheres.

Ainda em 73, King também se tornou a primeira presidente da Associação das Tenistas Profissionais. Considerada a “mãe de esportes modernos”, ela se aposentou das quadras após a conquista de 39 títulos de Grans Slam na carreira.

Depois, trabalhou como treinadora, comentarista e defensora de esportes das mulheres entre outras causas.

Em 2006, o centro da Associação de Tênis dos EUA , que hospeda o US OPEN, foi renomeado em sua homenagem. E é óbvio, ela faz parte do Hall of Fame do Tênis

É uma mulher forte, batalhadora, nas quadras e fora dela, é uma personalidade brilhante, uma vencedora nata que luta incansavelmente a favor das mulhres desde os anos 70, o esporte como um todo, nós mulheres e em especial o tênis, deve MUITO à ela. E GUERRA DOS SEXOS, faz jus à sua luta.

 

 

 

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.