Assisti A Maravilhosa Mrs. Maisel – e confesso que estou estou viciada nesta mulher

Série original da Amazon Prime, Marvelous Mrs. Maisel é encantadora, divertida e merece a atenção que está recebendo. Indicamos na nossa lista de melhores séries de 2017!

Confesso que a primeira vez que li sobre a série Marvelous Mrs. Maisel (A Maravilhosa Sra. Maisel em português) ignorei de propósito. Mesmo gostando da estética dos anos 1950, a premissa não me chamou a atenção, os atores eram pouco conhecidos e parecia algo pretensiosamente feminista de “uma mulher dando a volta por cima” o que, vamos combinar, temos feito de que o mundo é mundo. Por fim, a série foi criada e produzida por Amy Sherman-Palladino, a mesma de Gilmore Girls, e o que pode parecer uma vantagem para uns me levava a acreditar em uma Lorelai dos anos 1950, e como não sou fã da série, achei que seria mais do mesmo.

E que felicidade em estar tão enganada. Acompanhando o Golden Globe Awards e Critics’ Choice Television Awards, vi que a série venceu com honras duas das premiações mais importantes de Hollywood e resolvi dar uma chance. Só o primeiro episódio já vale a jornada e te prende do começo ao final – dá pra maratonar tudo em um fim de semana tranquilo– desenvolvendo de forma excelente a história e ligação entre as personagens. Não à toa, a série foi escolhida para continuar durante a Pilot Season, quando são disponibilizados cinco pilotos para que Amazon dê continuidade à série. É praticamente impossível não se apaixonar pela protagonista (e olha que normalmente tenho ranço de personagens estereotipados como ela), mas não resisti a tanto encanto.

Miriam ‘Midge’ Maisel (Rachel Brosnahan), a personagem principal, é a esposa perfeita: linda, inteligente, engraçada, dedicada. Tinha a vida detalhadamente planejada desde pequena: ir para a faculdade, encontrar um marido, ter filhos. Um padrão das mulheres ricas de seu tempo (ainda bem que as coisas mudaram, não é mesmo?). Ela faz tudo pelo marido Joel (Michael Zegen), uma verdadeira líder de torcida para um homem que sonha com uma carreira de comédia de stand-up. Eis que Joel tem uma noite ruim e inesperadamente conta para Midge que tem uma amante, faz as malas e abandona-a sozinha com dois filhos.

E quando falo que Joel abandona Midge “do nada”, não é como se o casamento estivesse em crise ou coisa parecida. Foi mais para um “vou comprar cigarros ali e já volto”, e, completamente despreparada, Midge não tem escolha senão reavaliar o que fazer com sua vida. Na mesma noite ela tem seu talento para a comédia descoberto por Suzie (Alex Borstein), que a convence a passar de “clássica dona de casa na década de 1950” para tornar-se uma comediante de stand-up. A série, enfim, é acompanha a jornada de Midge em sua autodescoberta como mulher.

Do ponto de vista técnico, o que chama a atenção é o figurino de Midge, sempre perfeito e alinhado com cada acessório. Mesmo a edição tendo problemas com a linha temporal em que se passa a série e a fotografia deixando um pouco a desejar, a série é muito bem executada, com uma direção assertiva no uso da câmera frequentemente girando, como um complemento da saia godê de Midge. A trilha sonora é bem boa mesmo, e o melhor: até aparenta ser um musical, mas não é!

A série traz ao debate muitos temas sensíveis, e de forma leve e divertida questiona a perspectiva do público quanto a alguns ideais ainda hoje seguidos. A maternidade, por exemplo, é tratada como apenas mais uma tarefa da esposa perfeita, como manter a casa limpa ou fazer o jantar; somente no avançar da série se percebe que a personagem nunca havia refletido sobre a maternidade, que talvez ela nem a quisesse – e tudo bem. Liberdade sexual, transporte público, religião e ativismo também são problematizados, em menor grau, mas todos com possíveis desdobramentos.

O feminismo em Marvelous Mrs. Maisel também é apresentado de forma simples, a partir das dificuldades de uma comediante no showbusiness nos anos 1950, sendo que ressalvas sobre a indústria permanecem relevantes até hoje. A independência de Midge é constantemente confrontada, a ponto de ela perceber que está cansada de suprimir seus sentimentos e colocar seu marido em primeiro plano. Este feminismo libertador e, ao mesmo tempo sutil, faz do show uma possibilidade de mulheres enxergarem seus desejos em uma cruzada pelo autoconhecimento.

Marvelous Mrs. Maisel tem tudo o que uma verdadeira série de comédia deveria ter, e os produtores encontraram a Midge perfeita na atriz Rachel Brosnahan, que não é apenas encantadora e enérgica, mas genuinamente engraçada. Com personagens brilhantes e uma roteiro equilibrado e bem-escrito, este deve ser um dos shows favoritos deste ano, sem precisar deixar você péssimo ou deprimido porque o mundo ser horrível.

Com uma segunda temporada já confirmada, The Marvelous Mrs Maisel deixa um delicioso gosto de “quero mais” em um dos finais mais interessantes que vi nos últimos tempos. Nem dramático, nem meloso ou parado: apenas um pedaço dos lindos doces que aparecem na série. Do posso escrever sem dar spoiler, reforço a mensagem que me parece principal em tempos redes sociais e eleições: sempre saiba o que acontece fora da sua bolha porque, se ela estourar, você pode se dar muito mal.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Fernanda Alcântara

Fernanda Alcântara é jornalista, pesquisadora de Quadrinhos e atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na USP (as leituras sempre atrasadas, as séries sempre em dia). Por quatro anos foi Editora-chefe da Revista Raça e desde 2014 realiza palestras sobre temas como comunicação, diversidade e igualdade racial e de gênero. Voluntária na FGV dando aulas de Atualidades para o cursinho pré-vestibular da instituição. Fala sobre suas nerdices em seu Blog Garotadosquadrinhos.com.br.