[CRÍTICA] Lady Bird: É Hora de Voar!

Quem acompanhou a edição histórica de 75 anos do Globo de Ouro neste ano, pode conferir o discurso de Barbra Streisand sobre ela ter sido a primeira mulher (única também) a ganhar um prêmio de melhor diretora. Isso há 34 anos!

Em sua fala, quando menciona que é necessário premiar as mulheres na categoria de diretor, a câmera foca no rosto de Greta Gerwig, diretora do tão aclamado Lady Bird, que além de diversas indicações e de ter recebido o prêmio de melhor filme (categoria comédia/musical) no Globo de Ouro, foi o primeiro filme a desbancar o Toy Story no site Rottem Tomatoes com quase 100% de aprovação de crítica.

Neste momento,  certamente passou pela cabeça de muita gente como é possível que um filme tão bem avaliado pela crítica especializada, não tenha sua diretora indicada ao prêmio de melhor diretor? Como ironizado por Natalie Portman, mais uma vez tivemos entre os indicados apenas homens.

 

Um discurso recorrente entre os homens que conheço, e em comentários de portais, é que mulheres seriam indicadas aos prêmios quando fizessem por onde, quando merecessem. No entanto, em prêmios cujos juízes são majoritariamente homens brancos e classe média alta, é muito difícil acreditar que seu julgamento se paute exclusivamente em critérios técnicos, afinal, Greta não é a primeira mulher a dirigir um filme aclamado pela crítica.

De qualquer maneira, a importância da produção de Lady Bird vai muito além de sua excelência técnica: temos o primeiro filme cujo tema gira em torno do crescimento de um personagem jovem, ritos de passagem, conflitos familiares, baile de formatura e todos os elementos que estamos acostumados a ver em produções voltadas a um público adolescente, sendo narrado na perspectiva de uma mulher.

Por que isso importa? Talvez, um homem não consiga perceber diferenças sutis no tratamento de câmera, ângulos, fotografia e desenvolvimento de personagens entre produções dirigidas por homens e produções dirigidas por mulheres. No entanto, como mulher, a sensação que tive ao assistir ao filme foi de familiaridade e conforto, durante toda a narrativa, coisa que raramente acontece em um filme dirigido por homens.

Isso porque em vários momentos as personagens femininas, sendo retratadas exclusivamente através do olhar masculino, por muitas vezes, não nos parecem verossímeis, porque de fato, não são. O que não acontece me Lady Bird, onde cada personagem é desenvolvido de forma tão realística, que é muito fácil que pessoas sejam capazes de se identificar com eles.

Quando digo pessoas, me refiro sim a todos os gêneros, uma vez que os conflitos abordados são universais e, mesmo quando não são, é importante que tenhamos acesso a estes momentos, para que todos se lembrem que a vida não se resume ao que se passa em nosso quintal.

Lady Bird gira em torno dos conflitos da personagem de mesmo nome e que está na adolescência, às vésperas de terminar o ensino médio e seguir para a faculdade. Porém, a personagem interpretada por Saoirse Ronan não se identifica com as escolhas que seus pais acreditam ser melhor para ela. Ela espera mais da vida do que passá-la eternamente em uma cidade pequena, sem acesso a programas culturais e onde nada acontece.

Entre as primeiras experiências e decepções, tratadas sem a histeria dos filmes que costumam abordar os mesmos temas, acompanhamos o desenvolvimento de uma personagem que amadurece diante dos nossos olhos, de forma gradual e extremamente leve, sem grandes afetações, mesmo quando algumas dessas descobertas sejam delicadas e difíceis de lidar.

A influência de diretores como Richard Linklater (Boyhood, Antes do Amanhecer), Jason Reitman (Juno) e Noah Baumbach (A Lula e a Baleia), com quem Greta é casada, é bem notável. Não à toa, Greta chegou a comentar em uma entrevista que a ideia inicial para a produção de seu filme teria se inspirado no fato de não haver um equivalente feminino para Boyhood. Ainda assim, Lady Bird está longe de ser algo como “filme adolescente para meninas”.

Com o mesmo ritmo e leveza de Juno, acompanhamos a história de uma pessoa que nos parece muito próxima, que nos remete às nossas próprias primeiras vezes, em uma narrativa linear, sem reviravoltas ou muito drama. Eu, que esperava algo muito maior, confesso que me decepcionei um pouco ao me dar conta que o filme não tem grandes pretensões além de contar uma boa história e isso, Greta soube fazer muito bem: me mantive interessada do começo ao fim e me diverti muito com as falas da Lady Bird, que é extremamente espirituosa.

Assim, vale muito a pena conferir a película e celebrar a produção, torcendo que sua relevância possa ser reforçada quando mais diretoras se sentirem confiantes em contar suas histórias.

 

Estreia prevista no Brasil: 15 de fevereiro de 2018.

 

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.