[CRÍTICA] THE POST: A Guerra Secreta

Um filme dirigido pelo Spielberg, com Meryl Streep e Tom Hanks, sobre segredos de Estado: Apenas essa primeira frase já seria suficiente pra levar qualquer pessoa ao cinema e julgar completamente injusto com os outros filmes, que The Post: A Guerra Secreta, concorra ao Oscar!

Ainda assim, vou contar um pouco sobre os motivos que me levaram a me emocionar em vários momentos: Bom, primeiro de tudo, tem a Meryl Streep, que é essa atriz genial que pode fazer qualquer papel, inclusive o Batman, interpretando Katherine Grahan, então presidente do jornal The Washington Post no início dos anos 1970.

Ao longo do filme, fica bem clara a resistência dos diretores, todos homens, em se submeterem às decisões de uma mulher, que, segundo eles, não deveria nem estar ali. Na época, o jornal era uma empresa familiar e Grahan teria herdado a presidência porque seu marido, indicado ao posto pelo falecido sogro, cometeu suicídio.

No entanto, ao longo de toda película, Meryl Streep consegue conferir uma força ao papel que cresce gradualmente com a personagem, deixando nítido que a empresa não era mais de seu pai ou de seu marido, mas que ela é quem tomava as decisões ali e quem não concordasse com isso, não era bem-vindo.

Diante de uma guerra controversa em que os EUA estavam perdendo, mas não queriam que a população soubesse, um grupo de jornalistas e acadêmicos foi enviado ao Vietnã para reportar o que estava ocorrendo e confeccionar um estudo que durou alguns anos e rendeu mais de 4000 páginas de documentos confidenciais, que chegaram a conhecimento público por meio do então gigante The New York Times.

Sem os mesmos furos jornalísticos que o NY Times e diante de uma crise financeira, Grahan precisa tomar diversas decisões que poderiam comprometer não só sua liberdade e tudo que tinha, mas o emprego de seus funcionários. O posicionamento de câmeras diversas vezes mostra Grahan em meio a homens que a subestimam como presidente do jornal e a cercam de maneira sufocante, sempre tentando lhe dizer o que fazer.

O seu posicionamento, se mantendo firme ao que acredita, ainda que todos os homens presentes a dissessem que ela estava errada, exceto por seu editor-chefe, interpretado por Hanks, é extremamente familiar para qualquer mulher que já tentou se fazer ouvir em alguma reunião ou em qualquer ambiente onde há predominância masculina.

Embora a narrativa trate de questões conspirações e escândalos políticos, o que Spielberg mostra é que um episódio tão significativo na História americana FOI DEFINIDO POR UMA MULHER e que sua força inspirou inclusive falas incríveis de outras mulheres no filme, como a da esposa do editor Bem Bradlee (Hanks), que eu simplesmente preciso compartilhar, porque é um momento em que ela explica ao marido que se algo acontecer ao jornal, ele poderá arranjar outro emprego, mas Katherine era quem estava sendo a pessoa mais corajosa da situação:

“Kay está em uma posição que ela nunca imaginou que estaria e que muitas pessoas acham que ela não deveria estar, mas, quando dizem a você repetidas vezes que não é boa o suficiente, que sua opinião não importa nada, quando as pessoas simplesmente olham pra você como se você não existisse, bom, pra elas, você nem está lá. Quando essa é a sua realidade por tanto tempo, é difícil acreditar que isso não seja verdade. Então, arriscar sua fortuna, a empresa que significa sua vida, tomar essa decisão, bom, pra mim, isso é realmente corajoso.”

A narrativa também propõe uma reflexão sobre os riscos à liberdade de expressão e da liberdade de imprensa e sobre o papel dos veículos de comunicação, cujo principal compromisso deveria ser levar a verdade à população, no entanto, é inegável a mensagem de Spielberg para as mulheres que foram ensinadas desde a fundação de seus países que “mulheres pregando são como cachorros andando em suas patas traseiras: não fazem direito, mas ainda assim, nos surpreendemos em vê-los” (citação Quaker usada por Streep), em alusão ao fato de homens acreditarem que mulheres não deveriam ocupar certos postos.

 

Há outras passagens inspiradoras a partir do momento de Katherine demonstra estar no controle dos eventos e a tensão construída desde o início do filme, ainda que estejamos falando de um episódio amplamente divulgado da história dos EUA, certamente deixa qualquer espectador preso na poltrona, de olhos vidrados na tela, esperando o que vai acontecer em seguida.

Esse é um mérito de Spielberg: sabe contar uma história como ninguém e com o elenco que tem em mãos, o resultado não poderia ser diferente.

Com estreia prevista em 25 de fevereiro de 2018, The Post é um programa realmente imperdível pra quem gosta de uma boa história de conspiração.

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.