[Crítica] Todo o dinheiro do mundo

 

Direção: Ridley Scott
Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Charlie Plummer
Duração: 132 min.

 

Não podemos dizer que havia uma enorme expectativa para Todo o dinheiro do mundo, o mais recente filme de Ridley Scott. O que colocou a produção em evidência foi, sem dúvida, a inusitada decisão do diretor, que regravou todas as cenas de Kevin Spacey (após diversas acusações de assédio contra o ator virem à tona). O J. Paul Getty à base de próteses de Spacey foi substituído por Christopher Plummer, que teve pouquíssimo tempo para trabalhar o personagem: segundo matéria do site Hollywood Reporter, o diretor refilmou 400 cenas durante 9 dias, no Reino Unido e Itália. Scott, em sua decisão, fez uma aposta arriscada, mas o resultado final se mostrou um dos maiores acertos do filme.

A trama acompanha o sequestro de J. Paul Getty III (Charlie Plummer), neto do “homem mais rico na História”. Baseado em fatos, o filme busca explorar a figura do magnata, especialmente suas relações problemáticas com família e dinheiro. Na verdade, a narração do jovem Paul no começo do filme deixa claro que, quando se possui tanto dinheiro quanto um Getty, a visão de mundo de um indivíduo é consideravelmente enviesada. Isto é a base da tensão entre o bilionário, que se recusa a pagar o resgate, e sua nora Gail (Michelle Williams), que quer seu filho de volta a qualquer custo.

Apesar de talvez nunca sabermos como seria a versão com Spacey, é inegável que Plummer é uma das melhores coisas sobre este filme (não à toa, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro e ao Oscar na categoria ator coadjuvante). Isso é ainda mais impressionante ao se levar em consideração as sérias limitações às quais o ator esteve sujeito. Getty é cínico, distante, carismático e cruel: ele lava as próprias roupas para economizar algumas liras, mas declara que “se você é capaz de contar o próprio dinheiro, não é realmente um bilionário”. Uma sequência no início do filme, com a narração de Paul, conta brevemente a história do avô e estabelece a sua figura “maior que a vida”; há momentos, no entanto, que mostram como Getty muitas vezes aumentava ainda mais a mítica que o cercava. Apesar da história tratar do sequestro do rapaz adolescente, o que se vê é como muitas vezes Paul Getty, o avô, parece ser o protagonista do filme, não Paul Getty, o neto. A presença do bilionário aparece como um buraco negro, que suga tudo para si.

 

Michelle Williams, por sua vez, está muito bem no papel de Gail. Chamou a atenção a maneira como mostraram a personagem em relação à misoginia de sua época: sua capacidade, sua preocupação com os filhos, sua situação financeira, tudo é objeto de questionamento e escrutínio. Em um dado momento, um personagem chega a criticar Gail por não estar chorando o suficiente (!). Sua atuação é mais contida, apresentando o conflito de uma mulher que se percebe sozinha, enfrentando forças que aparentam ser maiores do que ela pode enfrentar. Durante a maior parte da história Gail é acompanhada pelo associado de Getty, Fletcher Chase, interpretado por um Mark Wahlberg que está apenas ok. Isso, aliás, acaba sendo um defeito do filme: apesar da tensão oscilar entre Getty e Gail, os personagens interagem relativamente pouco. Wahlberg, enquanto mediador da conturbada relação sogro-nora, apenas faz o espectador perceber as limitações do ator em relação aos seus pares e nos faz querer ver mais cenas com Plummer e Williams.

A fotografia, direção de arte, figurino e trilha capturam a grandiosidade (muitas vezes opressiva) do mundo de Getty, como também colocam sutilezas que ajudam a definir seus personagens: por exemplo, a simplicidade de Gail aparece em seus sapatos, que se mantêm os mesmos durante quase todo o filme. As cores, por sua vez, são bastante dessaturadas, algo recorrente em diversos filmes de época (o que pode ser um tanto tedioso enquanto escolha estética). Aqui, isso funciona como uma forma de apresentar o mundo frio habitado por Getty, em oposição aos amarelos que dominam a sequência inicial do filme, que mostra o sequestro de Paul. As cenas em geral apresentam altos contrastes, podendo parecer bastante escuras: elas marcam um paralelo não apenas com a “sombra” de Getty, que cobre e acompanha os personagens, como também o chiaroscuro da pintura (Getty era um grande colecionador de obras de arte).

Apesar de apresentar um bom elenco e boa qualidade técnica, Todo o dinheiro do mundo não é um filme memorável. Pode-se argumentar que façanha de Scott é um atestado da sua competência como diretor (além, é claro, do talento de seu elenco e equipe), mas este filme não cativa seu espectador. Essa pode ser, aliás, a palavra que define este filme: competente. O personagem de Paul não desperta interesse, sendo que você apenas se importa com a sua liberdade por causa da sua mãe ou de seu sequestrador (curiosamente, o personagem mais desenvolvido e complexo de toda a história). Mesmo os personagens de Plummer e Williams se tornam um tanto cansativos, não por um problema com a sua atuação, mas porque seus personagens não se desenvolvem para muito além daquilo já estabelecido. Além disso, o filme começa a andar em círculos em determinado ponto, o que torna a história desnecessariamente longa (sem que isso contribua para a narrativa). Isso faz de Todo o dinheiro do mundo um filme que não será o desperdício de um ingresso de cinema, mas dificilmente motivará assistir mais de uma vez.


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Clarissa Monteiro

Ilustradora e pesquisadora de semiótica em quadrinhos. Formada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e mestra em Semiótica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, atualmente faz doutorado em pesquisa semiótica aplicada a quadrinhos.