Curadoria de eventos das Minas e das Lady’s Comics

2018 mal começou e já fomos chamadas atenção para cartazes de eventos de quadrinhos que não trazem nenhuma mulher em sua programação. Bom, sabemos que o número de mulheres envolvidas na produção de quadrinhos é menor do que o de homens, ao menos não temos números que comprovem o contrário, no entanto, uma série de reportagens dão conta que lemos tanto ou mais quadrinhos que os homens.

E não se trata de uma competição, mas precisamos falar sobre esses fatos, porque para que o mercado seja mais inclusivo e reflita a diversidade cultural existente no nosso país e no mundo também, é preciso que todos nós possamos nos enxergar nesses espaços.

Para isso, não basta apenas convidar mulheres, artistas negros e LGBTs para cumprir uma cota “se não, aquelas minas chatas vão encher o saco”. Se trata, acima de tudo, de uma mudança de comportamento e pensamento, se trata de olhar o outro com o mesmo respeito que você olha seus colegas e para que isso ocorra, é necessário que nas organizações dos eventos essa diversidade também esteja representada, do contrário, é bem improvável que as coisas mudem.

Evento mediado pela Gabi Franco

Me lembro de questionar uns amigos que organizaram uma antologia de quadrinhos uma vez, sobre a quantidade desproporcional de homens e mulheres na publicação. A desculpa é a mesma que sempre ouvimos: “Chamamos fulana e fulana e elas não quiseram participar”. Por que quereriam participar de uma coletânea com caras de quem elas nunca ouviram falar e que nunca se mostraram interessados em seus trabalhos antes? Cota, né? Nenhuma de nós quer prêmio de consolação.

Eu expliquei que se não houvesse um corpo editoral misto ou mais diverso, eles mesmos não seriam capazes de avaliar os trabalhos enviados de forma imparcial, até porque isso não existe. Uma história que toca muitas mulheres é considerada uma droga por muitos homens, isso porque são poucos os editores que estão atentos a questões que vão bem além do gênero dos artistas analisados. Um grupo de editores que me diz que mulheres serão premiadas quando produzirem à altura dos homens, não é um grupo formado por pessoas capazes de avaliar adequadamente trabalhos que não reflitam apenas seus próprios gostos.

No que tange aos painéis nos eventos ou aos eventos em si, conversei com a Samanta Coan, do Lady’s Comics. Ela estava na organização de todos os eventos do grupo e junto com a Samara Horta e a Mariamma Fonseca, foi capaz de proporcionar encontros que foram fundamentais para as artistas de quadrinhos no país. Não só isso, o Lady’s Comics sempre atuou, no seu tempo de existência, lutando para que nosso mercado fosse mais inclusivo e diverso, em diversos âmbitos.

Assim, não é preciso esperar a semana da mulher para chamar mulheres e submetê-las às mesmas perguntas todo anos, se ao longo do ano todo elas não são convidadas para outras atividades. Qualquer mesa, painel ou evento que um homem possa participar, uma mulher também pode. Embora muitas das artistas não produzam material relacionado aos super-heróis, o mercado é muito maior do que isso. É possível falar sobre processo criativo, materiais que utilizam, principais referências, produção de roteiro, campanhas de financiamento coletivo, gêneros narrativos – ficção, terror, política, cotidiano -, mediar bate-papos, falar sobre quadrinho nacional, webcomics, plataformas digitais e até mesmo de super-heróis, porque não faltam mulheres que manjam muito mais sobre o assunto do que muitos caras que conheço.

Painel sobre produção independente de HQ mediado por Dani Marino

Alguns colegas alegam terem convidado mulheres para colaborar com suas campanhas ou eventos ou publicações e dizem que elas recusam. Esses mesmos colegas são os que recorrem a mim para saber quem são essas mulheres, porque eles não seguem, não curtem, não acompanham e não compartilham seus trabalhos e aí, esperam que simplesmente elas aceitem participar do que quer que seja com alguém que elas nunca ouviram falar em um projeto que elas também nunca haviam tomado conhecimento. Bom, se esses colegas prestassem atenção no que dizemos, saberiam que a quantidade de vezes que essas mulheres foram silenciadas, criticadas, diminuídas por outros caras, entenderiam seu receio em participar de certos projetos com totais desconhecidos.

Público no 2º encontro das LAdys Comics

Vale lembrar que durante os 10 anos de existência o Lady’s manteve um banco de dados com informações de artistas, uma revista, a Risca (que falamos aqui) e inúmeras matérias com várias colaboradoras em seu site. E o Minas tem o guia das minas dos quadrinhos, que está em sua 15ª lista.

Deixo aqui as dicas da Samanta e espero que tudo isso sirva de material para reflexão que gerem futuras mudanças:

 

“Curadoria não é fácil. Ainda mais que estamos treinando um olhar mais antropólogo sobre a cena dos quadrinhos. Estudando museus comunitários vi o quanto a diversidade e a co-criação de um projeto podem fortalecer novas visões sobre a arte. É claro que é mais difícil de lidar com pessoas diferentes que tem vivências e relações opostas com ao tema explorado pela curadoria. Quando fiz os três eventos do Lady’s Comics, percebi que sem atenção e autocrítica não vamos sair das mesma opções de convidados e oficineiros que vão falar as mesmas coisas sobre o mesmo tema de sempre.” (Samanta Coan)

 

Um guia básico e prático:

 

  • Olhe para sua equipe e reconheça o perfil de cada um. Questione:
  1. Quão parecidos são?
  2. Qual é o viés que cada curador pode oferecer ao projeto?
  3. Se todos são iguais, consomem o mesmo material, lêem as mesmas coisas, será que não seria melhor trazer novas pessoas para colaborar?

 

  • Escreva o escopo do evento.
  1. entenda os objetivos de fazer um evento de quadrinho. Divulgar o que? Quais são os temas que dão caldo? Quais temas são pouco explorados? Saia do básico, da repetição de conversas e de convidados nas mesmas rodas.
  2. Quem é seu público principal? Qual é o secundário? E a assim vai… cada um tem sua necessidade e interesse sobre HQs.

 

  • Olhe a programação e se pergunte:
  1. Há diversidade (gênero, raça, classe social…)?
  2. Há pessoas da minha cidade envolvidas nos debates?

 

[!]Tem muitos pontos além desses e cada qual tem sua especificidade conforme o escopo do evento.

 

  • Não são apenas homens brancos que fazem curadorias. Há mulheres, negros, LGBTTs que estão na cena e com uma bagagem incrível para propor debates.
  • Se a curadoria falhou em algum ponto, reconheça. Anote a crítica que vai ajudar no próximo evento.
  • Conheça outros eventos de quadrinhos. Estude como cada um soluciona sua programação e defina o que é válido ou não para o seu. Isso traz novas ideias e nomes pouco conhecidos no cenário dos quadrinhos.

 

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Por fim, sabemos que muitos eventos e publicações são verdadeiros aliados em busca de um mercado de quadrinhos mais diverso e esperamos que mais pessoas sigam seus exemplos. Se não fossem essas parcerias, é bem possível que ainda não tivéssemos acesso a alguns espaços. Ainda assim, há muito o que ser feito.

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.