O Real psicanalítico e o horror nas obras de H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft, mais conhecido como H. P. Lovecraft, é considerado um dos fundadores da ficção moderna de horror. Nascido em 1890, na cidade de Providence em Rhode Island, teve seu fim em 1937, na própria cidade natal, devido a um câncer no intestino. O que se passa entre esse intervalo de 47 anos é uma história bastante conturbada e cheia de infortúnios. Apesar de se mostrar uma criança prodígio, que lia e recitava poesias já em tenra idade, o colapso nervoso do pai, com sua consequente morte, o levaram à sua primeira perda, ainda aos 3 anos de idade. Digo primeira perda, já que colapsos nervosos e internações em casas de repouso e manicômios se transformaram em uma constante em sua vida, acometendo sua mãe, sua esposa e até ele mesmo, o que o impediu de terminar os estudos e de ingressar em uma universidade.

Desde criança Lovecraft se mostrava uma pessoa introspectiva, que evitava relações interpessoais e se mantinha recluso em casa, evitando maiores contatos com o mundo exterior. Muito próximo de sua mãe e praticante das “amizades” por correspondência, teve na ciência, na astronomia e na escrita, as motivações para levar a vida adiante. Foi convidado a publicar seu primeiro conto em uma revista de ficção científica, as chamadas “pulp magazines” devido à uma carta que enviou para a edição, criticando o enredo de uma história ali publicada. Entretanto, nunca foi realmente apreciado em vida, tendo seus contos reunidos e publicados em forma de livro apenas após a sua morte.

Cthulhu, um de seus personagens mais famosos, por NathanRosario

Como sua própria trajetória aqui resumida pode adiantar, seus escritos possuem um estilo único, que mescla uma narrativa racional, quase jornalística, ao inverossímil, inominável, inimaginável. É como se o leitor fosse cativado primeiramente por pessoas em busca de respostas, seja numa expedição a outras terras, seja numa investigação a passados distantes ou na simples curiosidade diante de fatos destoantes do cotidiano. Porém, o que se encontra não são respostas, mas algo de natureza tão grandiosa, horrenda e indescritível que deixam marcas naqueles pobres homens para sempre. Não há relato que possa amenizar, nem palavras que possam transmitir, apenas uma mudança no olhar que demonstra a todos que aquelas pessoas passaram por coisas que ninguém deveria passar.

Tal trajetória nos remete ao processo psicanalítico e, especificamente, ao conceito de Real, elaborado a partir da obra de Freud pelo psiquiatra francês Jacques Lacan. Para ele, a psique humana pode ser situada em relação a três registros: o Simbólico, a linguagem enquanto o que limita e o que permite nossa relação com o mundo; o Imaginário, as fantasias e ilusões que distorcem o que percebemos; e o Real, o que é impossível de ser simbolizado e nos atinge como pura angústia. Todos nós nos relacionamos com essas três dimensões, mas o Real pode ser descrito como o horror puro, o frio no estômago que chega como um soco ou um tapa na cara. O encontro com o Real assusta tanto que te leva a fazer qualquer coisa para não ter que encará-lo novamente.

Fazendo uma aproximação com a obra freudiana, podemos dizer que é como o trauma: um acontecimento que é incapaz de ser elaborado pelos recursos internos já possuídos por aquela pessoa. Então ele permanece, como uma pedra ou uma ferida que precisa ser carregada e que volta a incomodar cada vez que algo se aproxima demais ou que é semelhante demais. A partir disso, o processo de análise é algo que irá tentar desatar esse nó, transformar essa ferida em algo que não seja tão dolorido ou tão incapacitante. Algo que seja minimamente dizível e aceitável.

Claro que não estamos dizendo que esse processo seja fácil ou que todos deveriam fazer análise. Nem todas as pessoas passam por traumas muito grandes, nem todas precisam de ajuda para lidar com eles, mas todo ser humano se depara, em algum momento da vida, com uma espécie de muro ou poço, diante do qual lhe faltam as palavras. É essa sensação que os contos de Lovecraft evocam e, provavelmente, é por isso que assombram e conquistam tantas pessoas. Existe um inominável dentro de cada um de nós e é preciso coragem para olhar para ele e, quem sabe, se transformar a partir desta visão.

Obras de H. P. Lovecraft pela Darkside Books:

Medo Clássico Volume 1 – Cosmic e Miskatonic edition 

O Fantástico Alfabeto Lovecraft, por Jason Ciaramella e Greg Murphy


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Bianca Ferreira

Por uma vida que valha a pena ser vivida...