Uma nova era de censura nos quadrinhos? – Parte I

Quando o Código dos quadrinhos entrou em vigor nos anos 1950, a palavra “censura” foi bastante repetida nos tribunais, quando o psiquiatra Frederic Wertham defendia que certas narrativas eram extremamente prejudiciais para os leitores, em sua maioria, crianças.

A população americana estava convencida de que os apontamentos do famoso psiquiatra, no best seller A Sedução do Inocente, eram acurados e exigiu que medidas fossem tomadas. Assim, os editores de quadrinhos concordaram em submeter todas as suas publicações à análise de censores contratados pela indústria, para impedir que certas expressões ou imagens fossem publicadas.

De Fernanda Nia – Como eu Realmente07

Ainda que este tipo de censura tenha sido auto imposta exclusivamente para a manutenção dos lucros de uma indústria rentável e para atender à pressão popular e política, as consequências da não publicação de certas narrativas foram sentidas por décadas. No entanto, vale frisar que, mesmo que Wertham tenha indicado que tipo de publicação era mais nociva aos leitores, a decisão de submeter os quadrinhos à análise prévia, não foi do governo, mas dos editores, na tentativa de evitar algo pior por parte do governo. Ao mesmo tempo, também foi uma decisão editorial pautada em uma lógica de mercado capitalista, onde a demanda determina o que deve ou não ser produzido. Ou seja, se a população estava impressionada com as considerações de Wertham e determinada a não comprar mais certos quadrinhos ou a boicotá-los, o que aconteceria é que no caso de sua publicação, eles poderiam ficar encalhados, já que seriam mal vistos, mas não houve proibição do governo ou imposição de uma lei que determinasse a prisão ou penalização a quem publicasse.

Em regimes ditatoriais, como o que enfrentamos no Brasil, censura significava que sua obra passaria pelo crivo de censores do governo e caso o autor insistisse em publicar sem as devidas alterações, ele poderia ser preso, morto ou torturado. Certo? Então, há uma diferença em se impor limites à expressão e escolher limites pautados em uma lógica comercial, não é?

Pois bem! Sabemos, ou fomos levados a acreditar, que os quadrinhos sempre foram consumidos majoritariamente por um público masculino e produzido para ele. Com a exportação dos mangás para fora do Japão, o número de leitoras aumentou em todo mundo e continuou a crescer com outras obras como Sandman e até mesmo os quadrinhos de super-heróis.

Com o advento da internet, entretanto, a crítica especializada, que também sempre foi produzida por homens e para homens, começou a dividir espaço com blogs, sites e páginas produzidas por mulheres, que se mostravam insatisfeitas com a representação feminina em certas publicações.

Não só isso, com maior participação no mercado de trabalho, o comércio passou a se especializar em conteúdo que atraísse o público feminino, de olho em um mercado que não costumava ser explorado em algumas áreas, como a de produção de quadrinhos. Isso significa, que, assim como qualquer outra indústria que visa lucro, a indústria dos quadrinhos passou a experimentar diversas formas de atrair as mulheres, na maioria das vezes, sem muito sucesso, já que as representações ainda eram feitas por homens com pouco ou nenhum conhecimento sobre mulheres que não se limitasse à anatomia do corpo de modelos.

Aí chegamos no Frank Cho e sua indignação ao ter alguns de seus trabalhos editados ou negados por editores da DC, alegando estar sendo censurado, discurso que foi endossado pelo Manara. É importante rever esse caso porque ele é didático e pode ajudar outros autores a refletirem antes de afirmarem publicamente que estão sofrendo censura. Na prática, o que busco fazer aqui, é ajudar quadrinistas a não passarem vergonha em público.

DIana com lordose – Arte de Frank Cho publicada da cintura para cima

Entendemos ali em cima que quando um editor recusa uma determinada arte ou roteiro, ele está fazendo isso pautado em seu conhecimento de mercado e conhecimento editorial que indica que tal trecho ou desenho não terá boa receptividade por grande parte do público ao qual se destina determinado quadrinho. É uma decisão comercial e que pode ou não ser acertada ou coerente, mas é tomada por uma pessoa paga para fazer isso com o único objetivo de garantir que a empresa obtenha o máximo de lucro possível de uma produção.

Quando falamos de quadrinhos mainstream, estamos falando também que estas publicações influenciam o que pode ser considerado ok ou não de ser publicado, pois quando um artista independente observa as estratégias de mercado de uma publicação e se ela teve saída ou não, ele tem uma ideia do que poderia também ter saída em sua produção.

Mas então, mercado maisntream segue o modelo fordista de produção, onde cada colaborador é responsável por uma etapa de um longo processo. Nesse sentido, se compararmos a uma fábrica de automóveis e você é pago pra pintar aquele carro de azul, que é a cor que automaticamente sai do jato que você maneja e você se sente inspirado e começa a fazer uns desenhos ou muda o cartucho da tinta, bom, você será demitido e se for como nosso amigo Cho, irá dizer que foi censurado e que a empresa está limitando a sua liberdade de expressão.

Isso, porque você sabe que se quer se expressar livremente e pintar um carro do seu jeito, você pode fazer isso, na sua oficina, não é? E essa lógica se aplica a todos os setores da indústria, por isso, quando um quadrinista quer expressar toda sua criatividade, ele lança sua HQ de forma independente.

Cho faz isso por meio de suas comissions, onde ele tem todo o direito de sexualizar, da forma mais misógina que queira, as personagens femininas a gosto de seus fregueses, tão misóginos quanto ele. A polícia não irá bater em sua porta e ele não será processado, morto ou torturado porque desenhou duas heroínas seminuas em posições ginecológicas para vender a um cliente, porque ele goza do direito de se expressar livremente, tanto quanto as mulheres que se manifestam em relação a qualquer obra.

Portanto, dizer que mulheres ou que os “Social Justice Warriors” estão censurando algo, é conferir um poder a grupos que não possuem tal poder e atestar publicamente a ignorância acerca da lógica que rege sua própria produção.

Vale lembrar de outro caso emblemático em que o artista soube se sair maravilhosamente bem: a capa variante da Batgirl #41, de Rafael Albuquerque e que fazia referência aos abusos sofridos pela Barbara Gordon nas mãos do Coringa, em Piada Mortal. A ideia era homenagear o vilão, porém, a HQ em questão não se destinava ao mesmo público que havia lido a Piada Mortal no final dos anos 1980 e fazer menção a um episódio tão pesado na vida da personagem, não faria sentido, editorialmente falando e foi cancelada a pedido do próprio artista.

Capa Variante de Rafael Albuquerque – Batgirl #41

Sobre mulheres serem moralistas ou não lerem os quadrinhos que condenam, números disponibilizados pelas próprias editoras indicam que o público feminino não para de crescer. Entre os leitores do próprio Manara, grande parte do público é sabidamente feminino e aqui no Minas nós inclusive entrevistamos uma quadrinista de histórias eróticas, a Giovanna Cassoto. O que sempre se questiona é a contextualização de certas cenas e se ela se adequa ao público ao qual se destina, e, eventualmente, apenas não gostamos de algo, o que não caracteriza, nem de longe, uma forma de censura.

Quanto à produção independente, continuarei em outro texto.

Para saber mais:


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.