Pantera Negra é um filmaço.

Com colaboração de Gabriela Franco

Já imaginou que racismo e acesso à direitos humanos poderiam ser discutidos em um filme de aventura/ação/heróis? Pois é justamente o que acontece em Pantera Negra, e quem assiste é convidado a refletir sobre tudo isso sob a perspectiva do povo de Wakanda, reino fictício onde se passa a trama.

O longa, com estreia marcada para 15 de fevereiro, conta a história de T’Challa (Chadwick Boseman), o primeiro na linha de sucessão ao trono do reino supracitado. Localizada no continente africano, Wakanda busca unir o melhor dos dois mundos: ao mesmo tempo que é a nação tecnologicamente mais avançada da Terra ela se mantém fiel às suas tradições milenares. O reino se esconde dos demais países, temendo que seus avanços não sejam bem recebidos pelas nações ocidentais.

Os acontecimentos do filme são uma sequência  direta de Capitão América – Guerra Civil, lançado em abril de 2016. Longa no qual o rei, e antigo Pantera Negra, T’Chaka (John Kani), é morto durante uma conferência da Organização das Nações Unidas. Agora, seu filho T’Challa deve assumir o trono e os deveres do herói. 

A linha mestra do o filme põe em cheque os privilégios dos habitantes de Wakanda em relação à população negra dos outros países, como os Estados Unidos e outros países da Africa.. Esse questionamento é evidenciado pela  figura do vilão Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Aspirando se tornar rei de Wakanda o antagonista apresenta métodos violentos e autoritários, mas persegue uma causa justa, que é levar poder e autonomia às populações negras oprimidas fora do reino abastado. Os diálogos são certeiros e profundos. Existe menos humor do que em outros filmes da Marvel, mas nem por isso é um filme grave. Os problemas e questionamentos são apresentados com respeito e relevância, sem nunca cair na pieguice ou no tom professoral.

T’Challa (Chadwick Boseman) a esquerda lutando contra Erik Killmonger (Michael B. Jordan) a direita

A questão dos refugiados e a colonização do continente africano também ganha espaço. Tudo isso acontece em meio às batalhas, conversas entre os personagens e principalmente no dilema do reino de levar ou não os recursos de Wakanda à comunidades externas.

A representação feminina é um ponto extremamente importante do filme. O trio formado pela general Okoye (Danai Gurira), pela guerreira Nakia (Lupita Nyong’o) e a cientista Shuri (Letitia Wright), irmã do rei, não mostra mulheres frágeis, ou simplesmente coadjuvantes, a estratégia nas batalhas e o cérebro por trás das invenções de Wakanda é delas. Aliás o elenco de coadjuvantes chega a ofuscar os protagonistas, de tanto espaço que tem na trama. Nunca um time de coadjuvantes foi tão bem representado em filmes de heróis, ganha de Guardiões da Galáxia e Homem Formiga, nesse ponto.

A esquerda Nakia (Lupita Nyong’o) e a direita Shuri (Letitia Wright)

Okoye é a líder das Dora Milaje, guerreiras defensoras de Wakanda, francamente inspiradas nos guerreiros Masai. É uma mulher fortíssima em caráter e preparo físico. Nakia é uma espécie de espiã humanitária, infiltrada em grupos de refugiados ela leva ajuda a locais externos. Já Shuri, a princesa, é a cientista por trás de inúmeras invenções de Wakanda, inclusive do traje do super-herói, o que empresta a ela um quê de Q (ok, perdão pelo trocadilho) o inventor dos gadgets do universo de James Bond, criado por Ian Fleming. A associação é imediata.

Mas todas as mulheres do filme, são, sem exceção, poderosíssimas, seguras de si, fortes e extremamente capazes em tudo o que se prestam a fazer.

O filme é ação do começo ao fim. A movimentação de câmera é intensa, mas não frenética, com alguns elementos metafóricos  trabalhados em alguns planos como quando Killmonger adentra a sala do trono. Certamente um olhar apurado e diferenciado para filmes de heróis do diretor Ryan Coogler, que dirigiu Michael B. Jordan em Creed.

Aliás, vale salientar que todas atuações estão incríveis, mas Micheal B Jordan rouba a cena com seu vilão ultra radical cheio de raiva, mas coberto de razão, Erick Killmonger, que também existe nos gibis. Criado por Don McGregor e Rich Buckler,  teve sua primeira aparição nas histórias em quadrinhos Jungle Action #6 (Setembro de 1973), é um vilão totalmente e verossímil para o roteiro de Pantera Negra.

A história é extremamente verossímil, aliás, dentro do que se pode esperar de um filme de super-herói,  justamente porque Pantera Negra foi criado em um universo muito urbano e real. Criado pela incrível dupla Stan Lee e Jack Kirby em 1966, Era de Prata dos quadrinhos, Pantera é uma homenagem escancarada ao partido dos Panteras Negras, criado no mesmo ano. O BPP (o Black Panther Party)  foi uma organização política  extraparlamentar, socialista revolucionária norte-americana e ligada ao nacionalismo negro. Fundada na cidade de Oakland, (que é citada no filme, reparem) Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale e tinha por  finalidade original  patrulhar guetos negros para proteger os residentes dos atos de brutalidade da polícia. T’Challa  foi o primeiro herói negro a protagonizar quadrinhos, seguidos por Falcão (1969) e Luke Cage (1972).

Além de abordar tópicos políticos importantes o longa valoriza a estética negra. A produção é a primeira dos Estúdios Marvel a trazer um protagonista negro e ter elenco majoritariamente composto por atores negros. Elementos presentes na cultura africana estão em destaque no filme. Wakanda é dividida em tribos, e cada uma delas é construída com características distintas em sua vestimenta, nas pinturas faciais, nos trajes para rituais e para guerrear, o que ajuda a evidenciar a diversidade dentro do continente africano. A direção de arte foi primorosa ao mesclar a identidade étnica africana com estética de tecnlogia, dois elementos que a princípio parecem análogos, mas que no filme tiveram um casamento perfeito em um clima  que remete a algo como “Tron na África.”, um toque Kirbyano, que reproduzia essa estética nas HQs e tem sido homenageado ultimamente, tanto com Thor, Ragnarok como com Pantera Negra. 

A trilha sonora teve supervisão do maior rapper da atualidade, Kendrick Lamar, e está simplesmente maravilhosa, pesada, eletrizante, diversa, na medida certa. Já está no Spotify

Muita gente não esta apostando em Pantera Negra, taxando-o de mais um filme introdutório para preencher buraco antes de Guerra Infinita. Bem, o filme não só é IMPORTANTÍSSIMO para a continuidade da trama como tem um peso indescritível para a comunidade negra e para Hollywood e esse é seu maior trunfo.

Quem diria que um filme de herói abriria finalmente as portas para os talentos de negros de Hollywood e do mundo? A ideia é que se expanda e não tenha mais volta.

Pantera Negra É um MARCO, um filmaço. E merece e deve ser prestigiado como tal. Guardem essa data: 15 de fevereiro de 2018. Ela vai ser muito importante um dia.

 


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