Cloverfield: Paradoxo é ruim, mas é bom

O mais novo filme da Netflix, anunciado no Superbowl e lançado no mesmo dia, tem recebido uma avalanche de críticas ruins. Mas será que é tão inferior assim? – [SEM SPOILERS]

Os fãs de Cloverfield que me desculpem, mas eu me diverti assistindo O Paradoxo Cloverfield e ele merece entrar na categoria de filmes “é ruim mas é bom”. Sei que é uma opinião bem controversa e pode gerar polêmica, mas entender como cheguei a este consenso implica entender a história por trás desta superprodução cujos clichês alcançam níveis estratosféricos.

A começar que Cloverfield não é uma franquia que se deva levar muito a sério, e isso não necessariamente é um problema. Com a técnica de “falso documentário”, o primeiro Cloverfield (2008) apresenta um grupo de amigos que “se arrisca” nas ruas de Nova York durante um ataque de monstros. De certa forma é uma espécie de homenagem “kaiju” – palavra japonesa que significa “besta estranha” ou “animal incomum” usada para se referir a um gênero de tokusatsu, filmes de efeitos especiais normalmente de monstros (estilo “Godzilla”).

Demorou 8 anos para que o segundo filme da franquia aparecesse com uma nova proposta e um roteiro mais organizado. Rua Cloverfield, 10 traz uma perspectiva diferente deste “fim-do-mundo” com a história de Michelle (Mary Elizabeth Winstead, eternizada em nossos corações como Ramona Flawers). Após se envolver em um acidente de carro, Michelle é mantida em um abrigo com dois homens que afirmam que o mundo exterior é afetado por um ataque químico generalizado. Novamente muito drama, mistério e sustinhos, só que em melhor qualidade.

 

Tudo isso para fazer de uma das vantagens da franquia Cloverfield: a independência  entre os filmes.  Ninguém precisa assistir os anteriores para entender o que está se passando na tela e, na verdade, a primeira curiosidade que você precisa entender deste lançamento é que O Paradoxo Cloverfield não pertencia à franquia, chamando-se inicialmente “Partícula de Deus”.

A ideia inicial do longa era totalmente diferente, algo sobre uma guerra contra a Rússia e dimensões. Entretanto, já com o filme produzido e a Bad Robot (produtora do J.J. Abrams) envolvida, a Netflix resolveu comprar o direito do filme e lançar junto com o comercial no Superbowl, causando um grande furor. A ação se mostrou lucrativa para a produtora, que gastou 40 milhões no filme e vendeu para o serviço de streaming por 50 milhões, sem ter que depender da bilheteria do cinema; e para a Netflix, que ganhou um filme de J.J Abrams para chamar de seu.

Mas só as transações comerciais e o nome J. J. Abrams não justificam o “mas é bom” do filme, certo? O que diverte em O Paradoxo Cloverfield é que, mesmo em seu tom sério, ele consegue abarcar quase todos os clichês de filmes sci-fi e vender ideias que não fazem nenhum sentido lógico, mesmo falando de física quântica – que para leigos já não faz sentido mesmo. As falas são tão manjadas que faz a gente esperar o Dead Pool aparecer chamando o roteirista de preguiçoso (se você não pegou a referência, veja o trailer aqui).

Todos os demais defeitos que toda a internet está falando por aí são verdade, e por isso mesmo que ele se encaixa em “filme ruim”. No entanto, como peça de entretenimento, é ótimo! A fotografia e os efeitos visuais são muito bem-feitos. A interpretação dos atores também é magistral: todos os atores fizeram limonada daquele roteiro. David Oyelowo é daqueles atores que fazem um filme medíocre parecer grande, e Gugu Mbatha-Raw (que deixou todo mundo apaixonado em Black Mirror: San Junipero) está impecável como protagonista.

Por fim, mas não menos importante, tem a questão da diversidade. Antes de escrever este texto fiz uma auto-crítica se eu gostei tanto do filme apenas porque o elenco era tão multirracial. Afinal, não é todo dia que temos como protagonista uma mulher negra nos filmes de sci-fi, além de incluir pessoas de diferentes nacionalidades (tem até representante fictício do Brasil), e o fato de ser fã destes atores e do diretor do filme ser negro não me ajudava. Mas então eu lembrei da importância desta representatividade pela qual tanto lutamos e resolvi defender o filme. Não só porque comprei a ideia, mas também porque para uma criança, ver uma mulher negra com seu cabelo black em um filme espacial pode fazer toda a diferença, sendo ele “ruim” ou “bom”. E isso é incrível nos nossos tempos.

No final, o saldo é positivo para quem resolve assistir. O Paradoxo Cloverfield não é como Gravidade ou Interestelar, “clássicos modernos” de sci-fi que nos fazem refletir sobre a nossa existência e a complexidade da noção de tempo e espaço. É um filme para assistir quando se quer relaxar, não entrar em crise existencial, no melhor estilo “pipoca+Netfilx. E esse gênero precisa ser respeitado também: é o filme “é ruim, mas é bom”.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Fernanda Alcântara

Fernanda Alcântara é jornalista, pesquisadora de Quadrinhos e atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na USP (as leituras sempre atrasadas, as séries sempre em dia). Por quatro anos foi Editora-chefe da Revista Raça e desde 2014 realiza palestras sobre temas como comunicação, diversidade e igualdade racial e de gênero. Voluntária na FGV dando aulas de Atualidades para o cursinho pré-vestibular da instituição. Fala sobre suas nerdices em seu Blog Garotadosquadrinhos.com.br.