Uma nova era de censura nos quadrinhos? – Parte II

… Como eu dizia no texto anterior, questões relacionadas à liberdade de expressão e censura nos quadrinhos também afetam a produção independente, mas, certamente, de formas muito diferentes em cada país.

Ainda que as redes sociais tenham contribuído para que nossa noção de fronteiras tenha mudado nos últimos anos, a cultura local, bem como a legislação e convenções sociais vigentes em cada país, influenciam fortemente a produção artística, afinal, ela é produzida dentro de um contexto.

O contexto atual implica que não temos mais controle sobre o alcance de nossos discursos, mesmo quando proferidos off-line, pois, como eu já havia comentado aqui, a mediação digital onipresente afeta as interações de maneira geral, mesmo as que não se dão online.

Nesse sentido, não é raro que artistas (homens) me procurem pedindo opinião sobre um roteiro ou uma HQ, com receio de que uma futura produção possa soar ofensiva às mulheres, uma vez que pretendem que suas obras sejam consumidas pelo maior número de pessoas, independentemente do gênero.

Robert Crumb

Por mais que a ideia de uma história universal e que tenha apelo a pessoas diferentes seja muito válida, a verdade é que certas narrativas acabam se destacando mais entre um determinado público do que outro e isso, depende de uma série de fatores.

O que sabemos é: personagens femininas mal desenvolvidas e seminuas, que são violentadas para justificar o protagonismo masculino, em uma história que não ofereça nada além disso, bom, não será bem recebida pelo público feminino. Ainda assim, ela pode encontrar seu público, por mais que esse tipo de representação seja clichê e preguiçosa.

No entanto, o que alguns artistas não parecem entender, é que não somos obrigadas a gostar de nada, não somos obrigadas a falar bem de algo que não gostamos e, usando nosso direito à livre expressão, podemos até falar mal e promover boicote! O que pra um artista independente, que insiste em representações batidas, não faz a menor diferença: geralmente, artistas que fazem questão em manter uma determinada linha narrativa, contam com os amigos para garantir a publicação de seus trabalhos e nunca tiveram grande apelo entre o público feminino. Isso significa, que não consumirmos seu trabalho, não faz dele um gênio injustiçado e censurado. Não! Isso só faz dele um artista mediano que vai seguir sem alcançar um público feminino, afinal, se a pessoa insiste em desenhar super-heroínas ninfomaníacas em seus enredos de quando tinham 12 anos de idade, em poses sem sentido, bom, isso não tem absolutamente nada a ver com censura, não é?

Mas sim, esse tipo de representação, respondendo a uma pergunta que me foi feita por um desses artistas, é machista por reforçar estereótipos que nos são extremamente nocivos. Isso faz do artista um machista? Muito provavelmente, se a única forma que ele consegue conceber suas personagens femininas for dentro dessa lógica, sim, ele é machista e isso é apenas um reflexo de um problema estrutural, não indica que ele seja abusador ou algo do tipo, afinal, a ficção nem sempre tem alguma relação com a realidade, não é mesmo? Ele pode seguir fazendo o que quiser em sua arte, que não será censurado, porém, certos discursos são passíveis de serem penalizados se estiverem entre as manifestações previstas em lei, aí, ele terá que lidar com as consequências de suas ações, como qualquer adulto.

Um bom exemplo de artista independente antenado com o que acontece no mundo, é o quadrinista Laudo Ferreira. Laudo tem uma produção completamente eclética, mas em grande parte dela, suas personagens femininas sempre se destacaram. Uma de suas personagens, a Tianinha, era publicada na antiga revista Sexy e sua produção era pensada no público consumidor da revista, ou seja…. No entanto, a personagem havia sido descontinuada e em suas palestras e painéis, descobriu certa vez que a Tianinha, quem diria, tinha leitoras e elas eram bem jovens!

Não sei exatamente o que levou Laudo voltar a publicar a Tianinha, mas ela surge completamente repaginada, depois de ter passado anos em um mosteiro no Tibet (ou é Nepal?), porém, ela continua sendo uma personagem erótica. E tudo bem, pois ela nasceu para ser uma personagem erótica e as pessoas compram, ou não, sabendo disso. Só que, por incrível que pareça, a nova Tianinha é mais verossímil e mais bem trabalhada do que grande parte das personagens femininas produzidas por homens que eu conheço.

Homens podem e devem escrever e desenhar suas personagens femininas, o que não podem, é esperar que gostemos e quando não gostamos, dizer que estamos censurando. O que difere o trabalho do Laudo para de outros artistas, é que além de pesquisar muito para criar seus personagens, suas histórias são coerentes com seu discurso. Isso significa que se um autor é extremamente misógino, muito dificilmente ele conseguirá atribuir características às suas personagens femininas que não reflitam apenas aquilo que ele enxerga nas mulheres.

No Brasil há vários artistas que são capazes de nos representar com mais características além das que nos retratem de forma completamente estereotipada. Por isso, se quiser aprender como isso é feito, eu indicaria de olhos fechados os professores da Quanta, o pessoal do coletivo Petisco (Daniel Esteves é professor de roteiro, inclusive) e do Fictícia. O Hector Lima, por exemplo, escreveu Mulheromem, ilustrado pela Pri-Wii e pelo Anderson Nascimento e o resultado é divertidíssimo. Ou seja, é possível oferecer um trabalho que seja bem recebido por um público diverso, se a pessoa estiver disposta a ouvir.

Assim, não, não estamos vivendo uma nova era de censura nos quadrinhos. O que estamos vivenciando é uma era onde as pessoas que eram porcamente representadas, quando eram representadas, estão se manifestando e certos artistas insistem em chamar crítica de censura.

Acredito que depois dos exemplos citados, deve ter ficado mais claro que o alguns chamam de censura, não passa mesmo de uma crise de “me me me” (eu, eu eu).

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.