6 motivos para ver Itaewon Class

O dorama (série coreana) que chegou à Netflix e mostrou que a Coréia pode, sim, falar sobre temáticas não-conservadoras e questões de representatividade, como raça, transgeneridade e reconstrução da vida fora da prisão. 

Itaewon Class é uma série de televisão sul-coreana, lançada pela JTBC e reproduzida pela Netflix, de janeiro a março de 2020. Quando foi lançada, me chamou atenção logo à primeira vista, por prometer falar de temas polêmicos dentro do mundinho fechado e conservador da Coreia do Sul. Como boa dorameira que sou, corri para assistir o dorama que fazia campanha sobre pessoas em diferentes identidades, como ex-presidiário, mulher trans, negro e inclusive uma sociopata. 

Mas o que é um dorama? Para quem não conhece essa expressão, dorama são séries coreanas (vem da palavra “drama”). Costumam ter apenas uma temporada, com cerca de 16 episódios cada série, com 1 hora de duração cada. Assim como as séries tradicionais, possuem vários gêneros, de romance, terror, investigativo, médico etc. Que tal dar uma chance para a produção asiática? Garanto que não vai se arrepender!

Itaewon Class, estrelado por Park Seo-joon, Kim Da-mi, Yoo Jae-myung e Kwon Nara, conta a história de Park Sae-ro-yi (interpretado por Park Seo-joon), um estudante de ensino médio que levava uma vida normal até perder o pai em um acidente. Brevemente, Sae-ro-yi foi preso e, após cumprir a pena, jurou vingar a morte de seu pai e ao mesmo tempo, construir um restaurante como o sonho de tiveram juntos, o DanBam. Itaewon Class tem uma pegada meio Revenge, mas acaba indo além! Apesar de falar sobre os personagens, não entrarei a fundo no roteiro para não estragar o dorama de ninguém!

Apresento 6 motivos para você ver Itaewon Class:

1) Itaewon:

O dorama se lança a partir da pegada de que em Itaewon, bairro conhecido pela história de gastronomia e vida noturna em Seul, tudo e todos são possíveis! Ou seja, você pode ser quem quiser em Itaewon, que “aceita” estrangeiros, pessoas de outras etnias, orientações sexuais, costumes e vivências. De cara, já dá vontade de ir pra Itaewon, ver desde as baladas LGBT, com hip-hop e diferentes estilos musicais, aos barzinhos e pubs com cerveja, decoração vintage e um ar de “humanas”. 

2) Saga do herói

Apesar de clichê, a história do protagonista e dono do bar restaurante DanBam, Park Sae-ro-yi, realmente é inspiradora, conduzida a partir de questões éticas, da vibe: até que ponto é possível lutar pelo que você quer sem se corromper ou abandonar as pessoas que estão ao seu lado? O jovem, com seu cabelo de tigela, roupa de moletom e olhar perdido, apresenta na maioria dos episódios que, apesar de parecer que, a qualquer momento será esmagado pelo império capitalista das indústrias sul-coreanas, tem mais cartas na manga e força de vontade do que a gente imagina, sem desistir dos seus ideais. 

3) Cadê a personagem transgênera que estava aqui? 

Bom, o dorama havia me sido vendido como um diferencial no que se refere às  representatividades dos personagens dos doramas tradicionais. Em alguns pontos, ele consegue realmente nos chamar à atenção, porém, em outros, fica devendo. Quando me disseram que teria uma personagem transgênera dentro da série, fiquei muito feliz por finalmente achar que a Coreia abriria um pouquinho o espaço para mostrar não apenas os “corpos que importam”, como diz Judith Butler. Fiquei uns 3 episódios procurando a personagem. Tal foi minha surpresa ao ver que a personagem trans e funcionária do DanBam, Ma Hyeon-yi, era interpretada por uma mulher! (Lee Joo-young) Eu já conhecia a atriz, e inclusive gosto muito do trabalho dela em outro dorama (Hello My Twenties 2). Por isso, achei uma sacanagem da parte da atriz se dar ao trabalho de interpretar uma personagem transgênera, sendo que a melhor pessoa para estar ali, era, de fato, uma atriz transgênera. Ainda assim, a presença da personagem ao longo da história foi incrivelmente bem desenvolvida, mostrando como Ma Hyeon-yi juntou dinheiro para fazer sua cirurgia de redesignação sexual trabalhando em uma fábrica, em um ambiente de trabalho braçal majoritariamente masculino. Inclusive, há a cena de “choque” dos amigos ao descobri-la montada em uma balada, e depois seu processo de transição. Pra mim, não foi nada de mais, mas imaginei fãs coreanos se revirando em seus sofás assistindo. Espero que ainda vejamos séries coreanas e outros trabalhos, mostrando mulheres e homens trans sem tanto “drama” (se me permitem a brincadeira). 

4) Personagem negro, mas coreano!

Outro ponto-chave da representatividade é o personagem Kim To-ni (interpretado por Chris Lyon), funcionário do DanBam, negro e guineense-coreano. A parte da contratação do To-ni é muito interessante, pois os demais funcionários estavam procurando um funcionário estrangeiro, que pudesse falar inglês para se comunicar com os turistas do bairro Itaewon. Quando veem To-ni na entrevista de emprego, uma pessoa negra no meio daqueles milhares asiáticos, logo concluem que ele é americano! Filho de pai coreano e mãe guineense, To-ni reforça: “sou coreano”. Há muita confusão dos personagens com a situação, pois não conseguem assimilar o fato de que um homem negro seja coreano (mesmo To-ni só falando com eles em coreano!). Isso representa bastante o raio racista que existe dentro da cultura coreana em não aceitar pessoas mestiças como pertencentes à nacionalidade do país, como filhos de pais coreanos com estrangeiros, como latinos e negros. A dupla-nacionalidade de To-ni vem em ótima hora para mostrar para o público coreano que você não precisa ter fenótipo asiático para pertencer à cultura. E ainda, fogo nos racistas né minha gente. 

5) E as mulheres?

Bom, incluindo a Ma Hyeon-yi, as personagens femininas certamente trazem muito impacto para o enredo. Jo Yi-seo (interpretada por Kim Da-mi), funcionária e gerente do DanBam, é uma personagem 8 ou 80: ou você ama ou odeia. Meus sentimentos, no entanto, ficaram oscilando por ela ao longo de toda a série, mas por fim, me apaixonei pela atriz e sua capacidade de interpretar uma jovem tão determinada, a ponto de ser obsessiva, pelo que quer (e por quem quer). Oh Soo-ah (interpretada por Kwon Nara) trabalha no maior rival do restaurante DanBam, mas também tem profundos e antigos laços com o protagonista Park Seo-ro-yi. Confesso que não fui muito com a cara dela, porém, também tem seu lado notório por se esforçar para conquistar sua carreira. A minha crítica à representação das personagens femininas se dá no envolvimento com o protagonista, e para evitar o spoiler, não darei mais detalhes. 

6) Ninguém solta o sonho de ninguém

O que entra um pouco na saga do herói, porém, vai além disso, é a determinação de todos os personagens. Como diz Emicida: você é o único representante do seu sonho na face da Terra. Se você não fizer, quem vai? Essa é a vibe de todos os personagens existentes do dorama. A questão de ser um ex-presidiário deve ser enfatizada aqui, pois da equipe do DanBam, além do protagonista, o Choi Seung-kwon (interpretado por Ryu Kyung-soo) também é, e foi colega de Sae-ro-yi na prisão. Seung-kwon se apresenta como um jovem com um passado obscuro, meio ranzinza e fechado, porém se mostra com um coração enorme, inclusive descobrindo que o crime não é a única oportunidade em seu caminho. Tanto na Coreia quanto no Brasil, ex-presidiários não são retratados como pessoas que merecem uma segunda chance, independente do que a pessoa tiver feito. O dorama não julga os personagens, apontando seus crimes e consequências, mas ressignifica o caminho de uma pessoa que, após cumprir sua pena, pode se dar a chance de trabalhar para seu sonho (e ter um sonho!). 

Bom, acredito que Itaewon, com seus closes certos e errados, tem um papel importante dentro da história das séries coreanas, por mostrar que podemos e devemos trabalhar sobre pessoas mais reais, identidades mais coletivas e caminhos mais “tortos” do que somos obrigados a seguir na vida adulta. Certamente é um dorama que, quando acabar, vai te deixar com mais vontade de seguir seu próprio caminho sem se importar com o que os outros digam. 

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