A potência de Conceição Evaristo

A potência de Conceição Evaristo

Imagem destacada: de Monica Imbuzeiro. Via Estante Virtual

Eu tomei ciência da existência da Conceição Evaristo não tem muito tempo, o que me remete exatamente à frase que ela disse em uma entrevista sobre a necessidade de questionármos os critérios que fizeram com que ela se tornasse mais conhecida apenas aos 71 anos de idade.

Ganhadora do prêmio Jabuti de 2015, com seu livro Olhos d’água, a doutora em Literatura Comparada pela UFF, vem ganhando o Brasil e o mundo com suas obras que resgatam a ancestralidade africana e refletem a experiência de ser negro em um país que foi, e ainda é, palco do genocídio de pessoas cujo único crime foi o de terem nascido com a cor de pele preta.

Assim, tendo ciência de que sua relevância vai muito além de suas contribuições literárias, tive a honra de participar de um bate-papo com ela e a  professora Selma Maria da Silva, Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ.

Nesse bate-papo, o intuito era discutir o poder das narrativas, principalmente, o poder que as narrativas têm de propiciar a criação de imaginários e de normatizar estereótipos que só podem ser quebrados a partir de uma produção diversas de histórias, contadas a partir de perspectivas também variadas. Sobre a isso, falei um pouco nesse texto sobre lugar de fala.

Conceição explicou que por muito tempo, a história oficial sempre foi contada a partir de uma única perspectiva que beneficiava um único grupo: o grupo dos homens brancos, majoritarimanete heterossexuais. Por isso que temos muito mais informações de um evento como a Inconfidência Mineira, que não durou nem 5 anos e quase nada sabemos sobre o Quilombo dos Palmares, que durou mais de 100 anos.

Não só isso, é apenas por meio da escuta atenta do que autoras como Conceição Evaristo dizem, que tomamos conhecimento de práticas racistas perpetuadas na literatura e na cultura de maneira geral, e que sempre foram representadas de forma tão natural e sutil, que nunca sequer as questionamos, pois, como destaquei nesse texto sobre pautas identitárias na cultura pop:

“Você não tem que ser obstinado se seu desejo é atendido pelo desejo geral. É por isso que as desqualificações gerais do feminismo como políticas identitárias (e aqui também existe uma história da razão porque políticas identitárias se tornaram algo a ser desqualificado) necessitam ser tratadas como forma de conservadorismo: são tentativas de conservar o poder presumindo que aqueles que desafiam o poder estão apenas preocupados com si mesmos.” (Sara Ahmed – via Casa da mãe Joanna)

E se engana quem acredita que os discursos dos autores negros dizem respeito apenas aos negros. A verdade é que as opressões que são impostas aos grupos minorizados operam seguindo a mesma lógica que é a de diminuir, invisibilizar e humilhar determinadas pessoas em função de sua classe social, cor de pele, credo, orientação sexual, gênero… Ou seja, os meios para se romper com as barreiras impostas pelos grupos dominantes para que outros grupos ascendam, também são parecidos e um deles é justamente a promoção de eventos como o que eu fui no Sesc de Santos.

Conceição e Selma no Sesc Santos

Eu não sei se tanto a Conceição como a Selma têm a exata noção do poder que elas têm de tocar as pessoas simplesmente por compartilharem suas vivências, eu não imagino o que é para uma jovem negra, cujos conhecidos dizem que ela não deve sonhar com uma carreira acadêmica, se ver diante de uma doutora que conseguiu sua titulação aos 61 anos, a despeito de todo racismo institucional que muitos pesquisadores insistem em dizer que não existe.

Esse mesmo racismo, disfarçado de criteriosidade acadêmica, que nos faz acreditar que tudo que a Academia produziu até hoje é neutro e que qualquer produção em que a pessoa parta de sua vivência, é parcial e não científica. Racismo que faz com que as artes e o conhecimento produzidos por homens brancos sejam universais a ponto de determinar que tudo que não for branco e masculino seja “do outro”.  Racismo que ao longo da Historia, apagou, negou, diminuiu e subverteu as narrativas negras, sob a crença perversa de que os negros não produziam conhecimento.

É preciso mesmo questionar os critérios que nos levaram a conhecer os autores negros mais de 100 anos após a abolição da escravatura no Brasil e reconhecer os privilégios que muitos de nós temos, eu, inclusive, para nunca termos buscado essas histórias antes.

Como branca que é afrodescentente, criada com avós, madrinha e primos negros, eu acreditava até há um tempo, que eu não poderia ser racista e que isso por si só já me conferia características antiracistas o suficiente. Foi só recentemente, lendo autoras negras que me dei conta que, sendo branca, ainda que afrodescende, eu não deixaria de me beneficiar de privilégios que me são concedidos graças à uma estrutura racista que oprime negros há séculos. Que acesso a certos espaços nunca me foram negados, que minha presença na Academia, no supermercado, no shopping nunca foi questionada ou considerada uma ameça.  Eu não preciso tomar certos cuidados devido a cor da minha pele.

Não entendo como é possível que existam pessoas que neguem a existência do racismo no país sob o argumento pífio de uma miscigenação que hoje sabemos ser um sinônimo de estupros de índias e negras. Não é possível que as pessoas circulem nos espaços e não se dêem conta que a maioria da população não ocupa a maioria dos espaços e isso é um sintoma do que a atriz e poeta Elisa Lucinda chama de Apartheid: se existe um lugar onde você sabe que encontrá mais negros e outro que encontrará mais brancos, então existe uma territoriedade. “Se existe territoriedade, existe apartheid”.

Eu poderia escrever páginas e páginas sobre como eu saí apaixonada por aquelas mulheres daquele bate-papo. Ao término do evento, tive a oportunidade de conversar com as duas doutoras e tive a sensação de realmente estar diante da minha madrinha, de mulheres da minha família, tamanha doçura e simpatia que elas exalam. Divertidíssimas, eu já imaginei que fariam um ótimo stand-up, muito diferente de algumas experiências com alguns acadêmicos que se colocam em um pedestal, o que me fez pensar que se eu posso aspirar ser como alguém nessa vida, gostaria de ser como elas.

Eu costumava me sentir constrangida por ter começado o mestrado tardiamente (terminei com 41 anos), mas quando a Selma contou que terminou o doutorado dela aos 61, olhar aquela mulher maravilhosa ali, cheia de energia, compartilhando seu conhecimento de forma tão generosa e humilde, eu só pude ter certeza que nunca é tarde pra gente fazer o que ama e acredita.

Obrigada Conceição e Selma pelas lições aprendidas. Levarei pra vida.

A Laluña Machado e eu, em estado de graça, heheh!

Dani Marino

Dani Marino é Mestra em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e pesquisadora de Quadrinhos. Integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, também tem graduação em Letras, com habilitação Português/Inglês.

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