[CONTO] Mais um dia [+18]

[CONTO] Mais um dia [+18]

Conto enviado por Escrivaninha de Papelão

Estava sendo tragada por um redemoinho emocional durante uma inútil checagem de páginas e mais páginas na internet, quando o celular apagou e ela acabou por notar algo que estava evitando há algum tempo: o reflexo da própria figura.

Desviou o rosto depressa. Agora, porque a ansiedade disparara outro reflexo, tão rápido e orgânico quanto aquele das pálpebras a nos proteger da sujeira atirada aos olhos. Encarar seu semblante depauperado, mesmo durante apenas um instante, fomentava a praga da crueldade que, aos poucos, sufocava sua autoestima e sua força de vontade. Sabia que não podia se evitar para sempre, mas o fazia pela opção pragmática de entender o que a jogava em uma espiral de pensamentos exaustivos, e, naquele momento, sua imagem representava o fracasso. Assim mesmo, puro e substantivado; algo que ela estava disposta a reverter, antes que não fosse mais possível.

Talvez, se ela percebesse que o fracasso definitivo não passa de besta mitológica criada pelos seres humanos (e que passa a fazer ronda suas mentes), teria mais tranquilidade em sua trajetória. Por outro lado, há de se reconhecer que, ao ganhar status de pensamento residente, tal besta apresenta ferocidade capaz de danos profundos e expansivos, principalmente por ter acesso direto à secreta porta entre o consciente e o inconsciente.

Enquanto ela pensava no que fazer quanto à sua situação, seu corpo conseguiu, finalmente, abandonar a cama. Este continuou a cumprir o ritual matutino com destreza, apesar de operar quase abandonado pela torre de controle da atenção de Norma.

Norma ainda não estava alienada o suficiente para se entregar à apatia de uma mulher que dorme, mas o fato de conhecer o caminho para que isso acontecesse a atemorizava, de certo modo. A sensação era de que, especialmente para uma pessoa marginalizada como ela, a apatia era como uma pesada sentença, com a condenação a um apagamento imediato de si mesmo e ao fim da vontade de escrever a essência da própria vida. Essa sensação desconsiderava a possibilidade de certa dose de apatia ser algo normal e naturalmente humano, ou, quem sabe, um estado de transição. Pode ser que, por isso mesmo, Norma não assumia o medo da concretização do cenário indolente — mesmo quando estava no isolamento de sua intimidade — por achar que esse receio tolo em demasia. Em contrapartida, acreditava que crises existenciais são, para muitos, artigos de luxo e que o valor a ser cobrado a ela poderia ser exorbitante, diante da necessidade de sobreviver antes de viver.

Voltando aos eventos daquele dia, encontramos Norma em sua cozinha, absorta e muda, remexendo na panela o que viria a ser seu mingau de fubá. Não demorou muito até cortar o fio emaranhado de seu raciocínio, pegando novamente o celular para mandar uma mensagem de texto para sua melhor amiga, dizendo o quanto a amava — algo sincero e com profunda raiz em seu coração. Ainda era muito cedo para que pudessem conversar, então continuou a escrever. Filha única, Norma facilmente criou o hábito de não falar sobre suas aflições, mas estava decidida de que aquele seria um dos dias em que quebraria esse padrão de comportamento:

Tem planos para hoje?

Se não, partiu vermos um filme? Ou pode ser aquela série que cê adora e eu nunca lembro o nome.

Estou precisando convers-

Foi obrigada a cessar a escrita, pois suas costas foram tomadas por uma dor terrível. Norma soltou um urro chorado seguido de um xingamento e, por um átimo, pensou que era uma daquelas dores de sempre, que lhe chicoteavam o escandaloso nervo ciático. Levou as mãos às costas e, assombrada, notou que havia um punhal cravado em si, o qual foi puxado logo em seguida por outra pessoa.

Ao se virar, Norma emitiu um grunhido desengonçado e repleto de horror, transtornada pela dor e pelo que via: uma mulher com feições idênticas às dela. Muito rapidamente — e antes que Norma pudesse voltar a si — , a outra mulher se aproximou, envolveu-a com um dos braços e com o outro a feriu com força e estranha precisão, na parte superior de uma das coxas. Para aprofundar o rasgo na carne, rodou o afiado punhal, puxando-o um pouco para cima, sempre fitando sua vítima nos olhos. De imediato, a lesão começou a verter sangue impetuosamente. Antes que Norma desabasse, a outra mulher a amparou até pousá-la com delicadeza no chão, em um gesto deslocado de humanidade.

— Você desistiu de lutar para superar o ambiente hostil ao seu redor e reivindicar uma vida de criatura livre. — disse sua algoz.

— Por que vo… Por favor… Você está sendo injusta. E simplista. Ainda estou tentando me encontrar. Eu vou me encontrar… — dizia Norma, com um pranto desolado, agarrando com vigor os braços do outro ser, enquanto arfava de desespero e pensava vertiginosamente em tudo que amava e no quanto desejava permanecer.

Passado um breve momento, a mulher respondeu, em um tom carregado de firmeza e gravidade:

— Não há mais tempo. Seus amigos e sua família irão me chamar pelo seu nome, mas não sou uma nova versão, ou um renascimento da sua existência. Você acaba aqui. Viverei a vida livre que você nunca experimentou.

— Não pode ter certeza. — Norma parecia se acalmar, ou se esvair. É provável que ambos.

— A opção pela liberdade não significa garantia de satisfação, Norma. O que me torna livre é algo fluido, mas vou descobrir o que a liberdade de agora irá trazer até mim.

— Talvez… Seja mais sofrimento.

Em seguida, Norma recebeu um carinho em seu rosto e um olhar condescendente e terno, ao qual correspondeu com expressão semelhante, durante todo o tempo do mundo e nenhum.

Dani Marino

Dani Marino é Mestra em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e pesquisadora de Quadrinhos. Integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, também tem graduação em Letras, com habilitação Português/Inglês.

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