[CONTO] O Blackout

[CONTO] O Blackout

O dia tinha trazido muita chuva e a noite chegava com um vento gelado que insistia em soprar fazendo uma espécie de uivo. Eu assistia TV quando o transformador na frente do meu prédio explodiu, deixando todo o quarteirão sem luz. Assim como muitas pessoas, eu fui correndo à janela para ver o que havia acontecido e o que vi foram sombras de árvores farfalhando entre os morcegos que estavam em festa. Em pouco tempo o cheiro de incenso e velas aromatizadas tomou todo o ar e por falta de coisa melhor para fazer, resolvi ir me deitar.

Acendi uma vela e segui em direção ao meu quarto e qual não foi minha surpresa ao me deparar com um grande sapo sobre a minha cama! Um sapo do tamanho da minha gata, que àquela altura devia estar escondida debaixo da cama, morrendo de medo. A criatura verde, de pele enrugada e enormes olhos vermelhos coaxava enlouquecidamente enquanto me encarava. Não sabendo muito bem o que deveria fazer, resolvi colocá-lo numa caixa na área de serviço para me livrar dele no dia seguinte.

Voltei ao meu quarto e lá estava ele novamente! Como havia conseguido sair da caixa e voltar à minha cama tão rápido? Já assustada com o monstrengo, resolvi então jogá-lo pela janela. Com o blackout talvez ninguém fosse notar o super sapo voador. Joguei-o e ouvi outro estrondo! Corri para a janela da sala e o transformador havia explodido outra vez. Ao que parecia, o pessoal a companhia elétrica teria muito trabalho naquela noite fria.

Retornei à minha cama para me deparar com o maldito sapo me esperando e desta vez, coaxando ainda mais alto! Se já estava com medo antes, naquela hora comecei a ficar apavorada. Peguei a vassoura e bati tanto no sapo que só o que sobrou foi uma sujeira nojenta para eu limpar, mas ao menos, havia me livrado dele. Foi o tempo de eu buscar um pano para limpar o chão e voltar para notar que a sujeira havia desaparecido e o sapão estava de volta à minha cama saltando e coaxando de forma ensurdecedora.

Pensei: “Se ele não sai, saio eu!” e já abria a porta quando ouvi uma conversa vinda dos corredores do prédio. Seriam os moradores? Olhei pelo olho mágico e vi sombras se esgueirando pelas paredes, vindo em direção à minha porta. Será que aquela noite poderia se tornar mais sinistra? Um sapo gigante na minha cama que nunca morria e agora sombras falantes batendo à minha porta:
– Toc, toc, toc…
Eu não respondi. Fiquei ali paralisada atrás da porta.
– Toc, toc, toc…
A sombra não iria embora enquanto eu não abrisse. Não sabia o que fazer. Foi quando ouvi:
– Por favor, senhorita, abra a porta. Não vou lhe fazer mal, só vim buscar o meu sapo.
Que escolha eu tinha? Ao menos surgiu a esperança de que alguém ou alguma coisa fosse levar o sapo dali.

Abri a porta e dei de cara com outra figura bizarra: o ser de cor verde tinha pernas extremamente finas e compridas, não deixando muito espaço para seu tronco. Seus braços longos e igualmente finos carregavam uma bengala e seu rosto minúsculo me fazia lembrar aqueles pigmeus das cabeças encolhidas. Sobre a cabeça ele usava uma cartola que combinava muito bem com o smoking que vestia. Seus olhos tão vermelhos quanto os do sapo, me fitavam esperando um convite para entrar.
– Hã… Entre por favor, senhor… ?
– Greener. Croaker Greener.
– Senhor Greener, entre, por favor. Me acompanhe até a sala.
– Muita gentileza sua.
– Fique à vontade. Seu sapo deve estar ansioso para revê-lo.
– Muito Obrigado.

Nesta hora o sapo apareceu saltitante na sala e se juntou ao seu dono no sofá. O senhor Greener exalava um cheiro insuportável de ovos podres e enxofre, mas eu disfarçava meu desconforto como podia, pois não queria fazer desfeita para minha ilustre visita.
– Ao que devo sua visita no meio dessa noite escura?
– Bom, minha cara, serei breve, pode ficar despreocupada. Você deve estar imaginando o que está acontecendo, certo?
– Precisamente.
– O blackout é a explicação. Sabe, quando blackouts ocorrem, principalmente com explosões como as que aconteceram, é impossível não sabermos lá embaixo.
– Lá embaixo? Onde seria exatamente “lá embaixo”
– Você sabe, no submundo, trevas, inferno… Como preferir.
– Ah, sei, claro – a frase acabou saindo como se eu estivesse achando tudo muito natural.
– Então, no momento do blackout, um portal se abriu e quem estava passando por lá naquela hora, aproveitou para dar uma escapada. Demônios de todos os tipos. Você até que deu sorte porque eu não sou dos piores.
– Nossa, me sinto muito mais aliviada – falei num tom sarcástico.
– Você não tem o que temer. Na verdade só há uma coisa que nos interessa demais aqui em cima.
– E o que seria?
– Suas comidas. Lá embaixo não temos toda essa sorte de guloseimas, sabe?
– Sério mesmo? Mas que tipo de guloseimas poderia lhe servir?
– Você tem chocolate?
– Tenho.
– Hamburguer?
– Também.
– Balas.
– Ahan.
– Gostaríamos de um pouco de tudo.
– Ok… Mas e depois?
– Depois nós partiremos e lhe deixaremos em paz.
– Feito!
Então fui até a cozinha para pegar tudo que era porcaria que pudesse encontrar. Preparei uma farta bandeja com doces, pães, refrigerantes e voltei à sala na esperança que minhas visitas se fossem o quanto antes.
– Aqui está.
– Muito Obrigado.
O senhor Greener e seu sapo devoravam tudo que havia na bandeja como dois glutões e quando as luzes voltaram: Puff! Os dois haviam sumido, mas os vestígios de sua visita ainda estavam lá: além do mau cheiro, embalagens de doces e manchas de refrigerante infestavam meu sofá. Imaginei que teria que queimá-lo em seguida.

Me preparava para dormir quando meu marido chegou, mas não tive vontade de comentar o ocorrido. Ninguém acreditaria mesmo.

O que sei, é que nunca deixo faltar chocolate em casa. Desde aquela noite, outros blackouts aconteceram enquanto eu dormia e só sei disso, porque nas manhãs seguintes minha casa exala um odor de ovos podres e enxofre, além de que sempre dou falta de pelo menos uma barra de chocolate em minha dispensa.
Já tentei explicar ao meu marido sobre essas visitas por conta dos chocolates e do mau cheiro. Ele não acredita, mas por via das dúvidas, sempre que se lembra, compra um punhado de doces e os deixa no baleiro em cima da mesa de jantar.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.

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