Resenha: Homecoming tem representatividade, poder e memórias

Homecoming é uma série original da Amazon Prime Vídeo que em suas duas temporadas traz mulheres como protagonistas. Com narrativas não-lineares, mesclando passado e presente e deixando para o expectador completar as informações e compreender o que é causa e o que é efeito das ações apresentadas na história, a série traz suspense e terror psicológico a cada episódio.

A série me lembrou muito os filmes Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) e Amnésia (2000), em que a ausência de memória dos protagonistas é relacionada com a montagem do filme e com a ordem em que a história é contada. Enquanto em Brilho Eterno a ausência de memória é relacionada principalmente a um relacionamento amoroso e em Amnésia ( Memento no original) ela está relacionada a um assassinato, em Homecoming a memória, ou essa narrativa fora de ordem, diz respeito é o ambiente de trabalho.

Homecoming (bem-vindo ao lar) é uma iniciativa de uma empresa privada que acolhe veteranos de guerra dando suporte psicológico para que eles consigam retornar à vida civil e superar os traumas da guerra. Julia Roberts, que é a protagonista da primeira temporada, atua no papel de Heidi Bergman, psicóloga que é braço direito do idealizador da iniciativa. Logo no primeiro episódio nos deparamos com duas Heidi, em linhas temporais distintas, e descobrimos que a protagonista do tempo presente, não se recorda de várias coisas de seu passado, assim, vamos entendendo sua história de vida.

Com capítulos curtos de 30 minutos, cada episódio consegue avançar na narrativa sem perder o suspense e atenção na história, ao mesmo tempo que é um quebra-cabeça inteligente, sua estética também foi elaborada, para que os enquadramentos e a fotografia contribuam para que o expectador se sinta claustrofóbico e tenso como a protagonista.

A segunda temporada, que foi lançada em maio, traz uma nova protagonista, mas consegue dar continuidade à narrativa de maneira coesa mantendo a mesma estética Quem assume é a ótima Janelle Monae em primeiro plano na história, na pele da personagem que começa sem lembranças, e vamos aos poucos descobrindo isso junto com ela.

Mesmo seguindo a mesma trilha, a temporada consegue ser diferente da primeira e não ficar repetitiva, abordando as questões de memória e diferentes linhas cronologias de outras maneiras.

A série surgiu a partir de um pocast homônimo que fez muito sucesso. Foi lançado em 2016 pela Gimlet, empresa de mídia digital e uma rede com foco em podcasts narrativos, sua sede fica no Brooklyn, em Nova York. e é subsidiária do Spotify. Participaram dele famosos como Catherine Keener, Oscar Isaac, David Schwimmer, Michael Cera e Mercedes Ruehl e os episódios podem ser escutados em inglês no Spotify.

A primeira temporada da série audiovisual foi toda baseada na narrativa do podcast enquanto a segunda temporada foi mais autoral dos roteiristas Eli Horowitz e Micah Bloomberg seguindo de maneira mais livre para construir a história, Julia Roberts além de atuar na série, também é produtora executiva das duas temporadas.

É importante darmos destaque ao protagonismo de Julia Roberts, pois a atriz de sucesso ficou muito tempo longe das telas o que está muito relacionado à sua idade, Podemos perceber que, em Hollywood , atrizes mais velhas – diferente dos atores homens – acabam recebendo menos oportunidades de papéis enquanto protagonistas ou para atuar como personagens alinhados com suas carreiras e que tenham um desenvolvimento mais complexo. É o eterno mito da juventude eterna. Para ser bela, bem sucedida, para chamar a atenção do público e fazer sucesso, você precisa ser eternamente jovem.

Além disso, a série apresenta personagens negros e não-brancos em suas duas temporadas, com maior destaque na segunda, e também um relacionamento homoafetivo entre mulheres que não é fetichizado ou apresentado de maneira estereotipada.

Dado que boa parte da série se passa em ambientes de trabalho, vemos mulheres líderes e chefes, que têm poder e sabem lidar com ele, e as próprias hierarquias de poder simbólico do trabalho também são bem abordadas durante ambas as temporadas, onde fica evidente o quanto as mulheres podem ser líderes, mas ao mesmo tempo, o quanto temos que nos provar excelentes o tempo todo para poder conseguir respeito.

Mesclando suspense, teorias da conspiração e fragmentos de memória Homecoming é uma boa série para maratonar e se divertir no final de semana e descansar, ao mesmo tempo que dá margem para desgraçar a mente pensando em um futuro talvez não tão distópico e nas relações de poder entre Estado, mercado e capitalismo.

Fica aí a dica!

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