O CASO THE LAST OF US PART 2: HATE, NARRATIVA COMPLEXA E FÃS TÓXICOS

O CASO THE LAST OF US PART 2: HATE, NARRATIVA COMPLEXA E FÃS TÓXICOS

Por Melissa Andrade

Quem poderia imaginar que The Last of Us Part 2, o atual game recordista de pré-vendas (pouco mais de 4 milhões de cópias vendidas na primeira semana) cuja protagonista é uma mulher gay e a narrativa do mesmo é conduzida através de duas personagens femininas, desenvolvido pela Naughty Dog e distribuído pela Sony Interactive Entertainment receberia tanto hate por parte da comunidade gamer? Oras, todo mundo, porque essa é obviamente uma pergunta retórica. 

No instante que os primeiros gameplays foram publicados no YouTube e aquele boato, lá de trás, aquele o qual quase ninguém quis dar ouvidos, se provou verdade, foi o suficiente para The Last of Us Part 2 se tornar um título polarizado: ou você gostou ou você detestou. Sem meias palavras e ponto. Acontece que como era de se esperar da comunidade gamer, a forma de expressar o sentimento negativo é justamente atacar daqueles que fizeram o jogo, em especial da atriz Laura Bailey – a voz de Abby Anderson – que nos últimos dias tem recebido através das redes sociais ameaças de morte, não apenas dirigidas à ela, como também a sua família. Os fãs tóxicos não conseguem separar o que é realidade da ficção e acreditam que a atriz é culpada por uma decisão tomada pelos roteiristas.

CONTÉM SPOILERS

Para quem não está entendendo nada e tampouco se importa com spoilers, Laura Bailey, um nome conceituado na indústria gamer, cuja voz pode ser reconhecida em outros títulos como: Uncharted: The Lost Legacy (Nadine Ross), Batman: The Enemy Within (Catwoman), Marvel vs. Capcom (Viúva Negra), Spider-Man (Mary Jane), Gears 5 (Kate Diaz), para citar alguns, dá voz a controversa personagem Abby Anderson (no destaque) que logo no começo em The Last of Us 2 (2020) mata Joel, o protagonista em The Last of Us (2013). 

A confirmação de um boato caiu como bigorna na cabeça dos fãs tóxicos que não estão sabendo lidar com a escolha narrativa dos criadores. E pior ainda, ter que jogar como a personagem por mais de 10 horas a fim de concluir o game. Para eles é inconcebível que Joel tenha morrido tão cedo no jogo, ainda por cima para uma mulher e de forma tão violenta. Bem, para começo de conversa, ainda que o apego ao personagem seja compreensível, Joel não era nenhum santo, longe disso. Em segundo lugar, tais “críticos” parecem ter esquecido que se trata de um jogo de tática e sobrevivência, o que implica sobreviver tanto aos infectados quanto aos humanos. O assustador é perceber a facilidade com a qual esses fãs tóxicos conseguem aceitar, entender e até apoiar atitudes de violência quando vindas de um personagem masculino, no entanto, são tão rápido em condenar e vilipendiar ações de violência similares – dentro do escopo de um game – quando partem de uma mulher. 

Outro ponto que também pode ser levantado aqui, é o fato desses haters não terem nenhuma crítica construtiva (o que não é novidade) e preferir atacar e agredir verbalmente uma mulher talentosa que realizou, de maneira brilhante, o seu trabalho. E com isso, falham miseravelmente em apreciar e entender as nuances de uma narrativa complexa. 

The Last of Us Part 2 é um jogo desconfortável, como disse o próprio Neil Druckmann, criador do game e co-roteirista junto com Halley Gross, numa entrevista em 2017 para a PSX. Anos se passaram desde o primeiro jogo. Joel, muito mais velho, vivendo numa pacífica comunidade, baixou a guarda. Não apenas isso, sua função, digamos assim, de guardião da Ellie também não existe mais. A garota, que aparenta ter entre 18 e 19 anos, não é esclarecido ao jogador, sabe cuidar muito bem de si e aliás, não gosta quando Joel intervém a seu favor. Pode-se dizer que a relação entre os dois é similar a de pai e filha, o que não é de todo estranho já que em The Last of Us, Joel perde a única filha e projeta em Ellie toda essa necessidade paternal. Isso acaba resultando em decisões violentas questionáveis e o estopim da jornada de vingança da Ellie nesse game.

Neil Druckmann, criador do game e a co-roteirista junto com Halley Gross

Os haters indagam que Joel nunca confiaria cegamente em Abby. Ele nunca iria atrás de alguém que não conhece. Ele nunca entraria num chalé com pessoas estranhas. Será mesmo? A situação na qual o personagem se encontra para tomar tais atitudes é ímpar. Ele está no meio de uma potencial nevasca, com uma horda de infectados no seu encalço e uma garota indefesa (Oi! Olha aqui o ponto fraco do Joel) aparece no seu caminho e lhe diz que possui abrigo. Vocês esperavam que ele fizesse o quê? Decidisse ficar ali, no meio da nevasca e da horda, munição no final, para ser devorado e despedaçado por infectados? Não. Ele e Tommy tomaram a única decisão possível naquele momento e que a grande maioria teria também, a de se proteger. E mencionei anteriormente, anos se passaram, a região onde mora não existe conflitos com humanos, por que não confiar nessas pessoas? 

A narrativa em The Last of Us Part 2 é deveras intrincada, além de desconfortável, porque coloca o jogador para pensar e analisar tanto os acontecimentos quanto às atitudes dos personagens. Abby decide matar Joel de forma desumana e ainda por cima com platéia. É o seu momento de vingar o pai, morto por Joel, juntamente com toda a equipe médica responsável por desenvolver uma vacina contra o vírus. Pois, entre salvar toda a humanidade do vírus ou salvar a Ellie, já que a garota morreria ao ter um pedaço do cérebro extraído para a composição da vacina, Joel escolheu Ellie. E o mais curioso nisso tudo? O fato da própria não perdoar Joel pela escolha. Na verdade, ela ressente ter perdido o seu propósito de vida. O que torna toda a narrativa do game ainda mais interessante. 

Os roteiristas não queriam que Joel simplesmente morresse. Eles queriam que a morte dele tivesse um significado dentro desse universo. Afinal, existem dois bons motivos para matar um personagem: 

  1. – Quando o roteirista não enxerga para onde mais o personagem pode evoluir e/ou esgotou suas opções viáveis 
  2. – Quando há a necessidade de evoluir outro personagem ao usar a morte como ponto de partida 

Creio ter sido essa a razão por trás da escolha dos roteiristas e mesmo assim, não é possível afirmar que Ellie realmente evoluiu com a morte de Joel, diferente de Abby. Infelizmente, a grande maioria dos jogadores, em especial aqueles que detestaram The Last Of Us Part 2, não vão conseguir enxergar isso, pois no momento que tiveram que controlar a personagem, já tinham uma opinião formada sobre a mesma. 

Abby, bem diferente da Ellie, consegue sim evoluir ao longo do jogo. Talvez por ter treinamento militar e com isso entender melhor a razão das suas atitudes vis. Talvez porque decide pôr um fim na vingança, afinal, seu único alvo era Joel, tanto que ela poupa Tommy e Ellie. Talvez por ter decidido enxergar outra realidade além daquela que conhecia ao decidir ajudar os irmãos Yara e Lev, um personagem trans que também sofreu hate por parte da comunidade gamer. No instante que Abby deixa de lado a rivalidade entre facções e abraça a causa dos irmãos, até então “inimigos”, é quando a personagem deixa aflorar um lado mais humano e questionador das regras impostas pelo ambiente em que vive. 

O mesmo não acontece com Ellie que cega em sua jornada de vingança, negligencia todos aqueles ao seu redor dispostos a amá-la e protegê-la. Com a morte de Joel, Abby parece ter encontrado a si mesma, enquanto Ellie se perdeu por completo. Mas, dizem que só quando nos perdemos conseguimos nos encontrar realmente, quem sabe também seja assim para Ellie. 

Com relação aos haters, bem, convenhamos que tais atitudes já eram esperadas. Para eles é muito mais fácil gritar, xingar, ameaçar ou ser preconceituoso, do que usar a cabeça e sair debaixo da pedra em que habitam. Não entendem toda a complexidade humana existente dentro da narrativa ficcional de um simples jogo de videogame. Porque, no final das contas, é só isso mesmo, um game, mas de maneira surpreendente é capaz de trazer à tona o pior lado do ser humano. 

Dica: Um curta-metragem brasileiro baseado no jogo The Last of Us Bound foi lançado e  já pode ser assistido na íntegra no canal The Last of Us Inside. O filme conta uma história alternativa da vingança de Ellie, tendo como base a aguardada sequência do jogo da Naughty Dog e foi dirigido e estrelado pela ilustradora brasileira Alice Monstrinho.

Melissa Andrade – Jornalista. Podcaster. Criadora de Conteúdo. Crítica de Cinema  e Feminista. Possuidora de inúmeros pequenos conhecimentos e extremamente curiosa. Ah! Marvete com orgulho!

Gabriela Franco

Bacharel em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em cultura pop pelo The Smithsonian Institute/EUA. Cineasta pela Academia Internacional de Cinema. Repórter da revista Mundo dos Super-Heróis.
Mãe da Sophia e da Valentina. Idealizadora e editora-chefe do MinasNerds.

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