Recomendação e Análise: Alegorias e surrealismo em Shoujo Kakumei Utena

O primeiro contato que tive com Shoujo Kakumei Utena (A Garota Revolucionária Utena) foi através da extinta revista Animax. Desde o princípio a estética, a história e os personagens me chamaram a atenção e quando eu finalmente assisti a série, percebi que a obra era recheada de surrealismo, alegorias, referências e conceitos diluídos em uma obra de baixo orçamento e camuflada como um anime sobre vida escolar adolescente.

Claramente inspirado na obra de Ryoko Ikeda, A Rosa de Versalhes, Shoujo Kakumei Utena é um anime baseado no mangá original de Chiho Saito publicado em 1996 pela Shogakukan, sendo exibido no Japão em 1997 pela TV Tokyo, tendo a arte de Chiho Saito e o roteiro adaptado por Be-Papas. No Brasil, o mangá foi publicado pela JBC, possuindo seis volumes (e não cinco como no original) em 2008, e o anime, embora não disponível por aqui, teve seu OVA (original vídeo animation) lançado em 1999 chamado “Utena – A Garota Revolucionária: Uma Aventura Mágica”.

A série de 39 capítulos começa com nossa protagonista, Utena, com seis anos de idade. Utena acaba de ficar órfã e anda na chuva próxima a um rio de forte correnteza, pois deseja morrer. A garota cai e é salva por um príncipe,do qual ela só se lembra do perfume de rosas , que seca suas lágrimas com um beijo e lhe entrega um anel com o selo de uma rosa, dizendo para ela que se mantenha nobre e que um dia o anel a fará encontrá-lo novamente, em seguida, ele desaparece. Deste dia em diante, a garota decide que não quer ser uma princesa esperando ser salva por um príncipe, mas que deseja se tornar um príncipe como o que ela conheceu.

Utena (que no mangá sabemos que passa a morar com sua tia) recebe todos os anos cartões de forma anônima, juntos, os cartões mostram uma renomada academia chamada Ohtori, e uma mensagem que diz “você irá me encontrar aqui”. Desejando encontrar seu príncipe novamente, Utena ingressa nesta academia.

Na escola, Utena, com agora 14 anos, é diariamente repreendida por usar o uniforme masculino de sua antiga escola e logo chama a atenção de membros do Conselho dos Estudantes ao defender uma garota chamada Anthy que é agredida por seu namorado Sayonji. Utena é desafiada em um duelo de espadas que acontecerá numa arena suspensa em formato de rosa.

A protagonista vence Sayonji destruindo a rosa que há em seu peito com uma espada de madeira e sua vitória só acontece, pois a figura de um misterioso príncipe surge e guia Utena para a vitória. O que Utena não sabia era que o vencedor ficava com Anthy como prêmio.

Anthy é a Noiva da Rosa, e como tal, Anthy se comporta como uma boneca sem sentimentos: ela irá pertencer àquele que vencer o duelo e se submeter às suas ordens sem questionamentos. Todos duelam pela Noiva da Rosa, pois dentro dela habita a espada de Dios, uma espada com o poder de revolucionar o mundo.

Anthy, Utena, Nanami, Miki, Juri e Sayonji

O primeiro arco da história mostra Utena vencendo consecutivos duelos para “salvar” Anthy dos abusos dos outros duelistas e aqui é onde normalmente o anime é considerado yuri, gênero homoafetivo entre mulheres, pois a relação de Utena e Anthy se assemelha a de um casal, porém, deduzir a sexualidade de Anthy é problemático pois como dito anteriormente, Anthy parece não se importar com quem é o vencedor, seja ele homem ou mulher, e Utena pode ser tanto homossexual, bissexual quanto heterossexual, dependendo de como for feita a leitura de quem está assistindo. Existem várias formas de leitura que dão suporte a qualquer uma das opções, sendo assim, tentar estabelecer aqui a sua sexualidade é um desserviço e uma mera opinião. Até mesmo por que classificar Utena neste ou naquele papel de gênero ou sexualidade não é o foco da série, sua aparência, ações e personalidade não são definidas pelo seu sexo ou gênero, mas são expressões de sua personalidade única.

Neste primeiro arco já notamos várias referências, primeiramente, a academia Ohtori é totalmente surrealista, o que é um conceito bastante inovador para um anime shoujo. A arena de duelos fica no topo de uma enorme construção de escadas em espiral e tem formato de uma rosa, e em cima da arena há um castelo de ponta cabeça, o mecanismo que abre a porta é uma gota d’água que pinga horizontalmente no selo do anel do duelista, existem carros passando horizontalmente ao redor dos duelistas, a arena sempre está decorada com elementos relacionados ao psicológico do oponente: carteiras escolares, vasos de flores, pianos. Outro conceito muito usado são as sombras. Muitas vezes a história é narrada por sombras de garotas, ou mesmo os flashbacks são realizados com sombras dos personagens, e muitas cenas mostram apenas silhuetas dos personagens, uma provável referência ao teatro de sombras. Da mesma forma, elementos visuais que passam despercebidos, mas que possuem significados como velas que representam personagens se apagando, quadros de borboletas, gatos nas janelas, carros sem motoristas se fazem presente e exigem do espectador atenção e interpretação.

As Garotas Sombra que servem como narradoras da história

O baixo orçamento da série nos ajuda a entender estes elementos como alegorias, quando se cria com menos recursos cada elemento da cena tem um significado e não está ali simplesmente ao acaso, sendo assim, cada elemento está intencionalmente ligado a cena, o que faz com que a série tenha várias camadas de significado alegórico. Embora nem toda cena tenha um real significado, mas a maioria das cenas possui um significado é funcional para o entendimento da narrativa.

Existe também uma forte alusão à obra de Herman Hesse, Demian, um livro com as aplicações do autor em psicanálise e a elaboração de um drama ético sobre a enorme confusão mental de um jovem que toma consciência da fragilidade da moral, da família e do Estado. Neste romance, existe uma divisão no mundo em duas partes, o mundo das crianças e dos adultos, sendo o primeiro leve e pacífico e o segundo perigoso e doloroso; e a adolescência seria o período entre os dois onde percebemos duramente que devemos deixar o primeiro para ir para o segundo e que devemos deixar para trás as fantasias infantis que não são compatíveis com o mundo adulto. A adolescência é um processo bastante profundo, individual e pessoal onde o indivíduo pode deixar o mundo infantil participando gradualmente da sociedade adulta ou ele é arrancado do estado infantil por um trauma, porém, de todo modo ele é forçado a se adaptar psicologicamente.

Temos uma frase dita por Touga, um duelista da animação, que se assemelha a dita no livro de Herman Hesse. No anime, Touga diz:

“Se um pintinho não quebrar a casca do ovo, ele morrerá sem ter nascido. Nós somos o pintinho. E o mundo é nosso ovo. Se não quebrarmos a casca do mundo, nós morreremos sem termos nascido. Destrua a casca do mundo!”

Na obra de Hesse, a frase é a seguinte:

“O pássaro encontra sua maneira de sair do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa primeiro destruir um mundo. O pássaro voa para Deus. E o nome deste Deus é Abraxas.”.

Embora em Utena não tenhamos nenhum menção à Abraxas com na obra de Hesse, existe uma faixa musical na trilha sonora cujo nome é “Abraxas”, confirmando a referência ao livro de Hesse. Não apenas isso, a obra toda é sobre realidade versus fantasia, autoconhecimento, a poder de destruição das instituições de ensino e sobre as tribulações da adolescência. Abraxas é um termo místico muito usado entre gnósticos. Suas origens remontam a Basílio de Alexandria, que o usou no segundo século de nossa era como um título para a Divindade. Na numeração grega, às sete letras da palavra denotam o número 365, os dias do ano solar, representando um ciclo completo da ação divina. Assim como em Demian, na animação temos um ciclo precisando ser quebrado por uma revolução.

Utena encontra com seu príncipe e decide tornar-se um também

O que nos leva a pergunta: o que é revolução? Seria uma revolução política, seja ela pela força, perseverante como a criação de novas normas com o passar do tempo, ou ainda sob uma definição mecânica, sendo uma rotação completa de um ciclo até o retorno ao seu ponto original. Então qual seria a revolução presente no anime? Bom, todas elas. Aliás, lembram-se de Abraxas e os 365 dias do ano solar? O ano também é a rotação completa de um clico até o retorno ao seu ponto original. Temos aí outra referência da série muito bem amarrada.

Utena desafia várias normas e causa mudanças nas regras e nos duelos tanto do Conselho dos Estudantes quanto dos Duelistas da Rosa Negra no segundo arco. Desafia a autoridade de Akio e liberta os estudantes de seu poder. Socialmente, Utena desafia padrões de gênero e normas sexuais ao desejar tornar-se um príncipe ao invés de uma princesa sendo eternamente resgatada. Utena é atlética, veste um uniforme masculino e é popular entre as garotas que inclusive disputam sua atenção, semelhantemente à Lady Oscar em A Rosa de Versalhes, e também, assim como Oscar, Utena vive eternamente entre uma dualidade: Utena mostra valores da masculinidade tradicional, como o cavalheirismo, quanto valores da feminilidade tradicional, como ser levada por um amor arrebatador. Aliás, o conceito de dualidade se repete em vários outros elementos: duplas de oponentes, duplas de irmãos, duplas de personalidades em um personagem.

A adolescência é retratada em Shoujo Kakumei Utena também como uma dualidade: ou ela é construtiva ou ela é destrutiva, ou melhor, ou ela é evolucionária ou revolucionária, conforme mencionado anteriormente. Ela é construtiva ou evolucionária quando ela é um processo de conjunto de novas experiências e emoções que sobrepõe um alicerce que forma nossa identidade. O limite entre a infância e a idade adulta é demarcado pelo tanto de conhecimento que alguém possui, ou seja, um adulto é alguém que sabe como é ser um adulto e a adolescência é um período de nossas vidas onde construímos nossa identidade através dos recursos que nos são dados. Muitos filósofos construtivistas retratam esta fase como um período no qual desenvolvemos significados e valores através de instituições de ensino, afinal se o que separa crianças de adultos é conhecimento e as instituições de ensino são onde crianças adquirem ambos os conhecimentos práticos e habilidades interpessoais. Percebem outra referência à obra de Hesse neste tema?

Já as características de uma adolescência destrutiva ou revolucionária englobam características como destruição e substituição: sua identidade de adulto não pode coexistir com a identidade de criança uma vez que a sua identidade infantil é fundada sobre falsas noções e entendimentos de como funciona o mundo real. Entrar na fase adulta com um pensamento infantil é no melhor dos casos, inocente e no pior dos casos, totalmente autodestrutivo. Utena é arrancada da vida infantil pela morte de seus pais, e ao entrar na Academia Ohtori, local onde os membros do Conselho da Rosa e da Rosa Negra parecem viver uma eterna infância, e há uma leitura da série que nos faz pensar que eles estão ali, literalmente, impossibilitados de deixar essa fase, mas esta é apenas a minha interpretação, acaba fazendo com que os personagens se libertem desta condição ao derrotá-los em batalha. O trauma da derrota os força para dentro da vida adulta, de maneira revolucionária, ou destrutiva. Por isso nossa protagonista é uma garota revolucionária e um personagem muito bem construído. Além de Utena, faço aqui uma menção a outra personagem muito bem construída, Juri, uma das duelistas, uma das personagens mais bem construídas e com um ótimo background e arco completamente relacionável por muito de nós.

Muita coisa mais poderia ser dita sobre Shoujo Kakumei Utena, como a questão de uma possível representatividade já que Anthy, Akio, Dios e Mamiya tem a pele negra. Ou ainda sobre a sexualidade e orientação sexual dos personagens. Ou o feminismo da série. Mas estes assuntos ficam pra um próximo texto.

Infelizmente Shoujo Kakumei Utena não está disponível em nenhum serviço de streaming no momento, mas é possível assistir online através de sites e aplicativos, mas certamente o anime vale o esforço para poder assisti-lo, é um dos meus animes favoritos e com os finais mais inesperados e surpreendentes que já assisti, daqueles que você passa dias tentando entender.

Cheio de plot twists, de personagens bem construídos, alusões, alegorias, referências, relacionamentos proibidos, problemáticos e análises psiquiátricas, Shoujo Kakumei Utena é uma animação muito boa que não recebe o seu devido valor.

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