RED – HQ erótica produzida por brasileira: tá tendo! +18

Não faz muito tempo, eu discutia com um cara sobre os motivos de autoras de HQ eróticas não assinarem usando seus próprios nomes. Eu tentava explicar, porque sendo mulher e usando um pseudônimo, uma artista se sentiria mais segura, afinal, em uma sociedade em que uma revista de grande circulação indica que devemos ser recatadas e “do lar”, qualquer mulher que expresse sua sexualidade, está sujeita a um tipo de assédio extremamente constrangedor.

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Não só isso, já falamos inúmeras vezes sobre a diferença de tratamento que recebemos quando somos protagonistas de nossas sexualidades e não coadjuvantes da imaginação masculina, quando expressamos claramente que também gostamos de sexo e que também gostamos de explorar nossa sexualidade como bem entendemos: somos chamadas de vadias e somos assediadas das mais diversas maneiras.

Mesmo assim, há mulheres que ousam desafiar os paradigmas e produzem suas histórias, a despeito do que qualquer pessoa possa falar e o resultado é no mínimo, incrível! Ler uma HQ erótica e finalmente se enxergar nela, enxergar que ela dialoga com suas experiências e que não, não somos vadias porque falamos abertamente sobre sexo é uma experiência que tem nos sido negada há séculos.

Por isso, ler Red, HQ independente da Chairim Arrais, é um baita presente. O primeiro volume, bem curtinho, serve como uma apresentação da personagem, para que ela mostre a que veio. Ruiva e cheia de sardas, Red tem um corpo voluptuoso, que lembra bastante a estrutura de muitas brasileiras e o foco de sua narrativa não é o prazer masculino, com cenas gráficas e “duras” como estamos acostumadas a ver em muitas HQ do gênero.

Red é suave, leve, explora relações orgânicas e o prazer que a personagem sente em ser quem é e amar das mais diversas formas. É alguém que se permite, que não está preocupada com tabus, literalmente uma mulher gostosa, dessas que você tem certeza que o sexo deve ser muito bom, porque ela não tem amarras.

Em sua edição de estreia, que nos deixa com gosto de quero mais, não há exatamente uma história, mas uma introdução à personagem, onde ela demonstra o que gosta, como gosta e com quem gosta, com uma paleta bem suave, em tons de branco, vermelho e alaranjados, que parecem um convite ao seu universo.

 Então, se eu fosse você, não recusaria esse convite. A Gabriela Franco, não recusou e suas palavras na introdução da HQ, deixam bem claro porque você deve adquirir a sua o mais rápido possível.

“Eu adoro quando mulheres fazem quadrinhos de putaria. Eu adoro mulheres fazendo quadrinhos de qualquer gênero, obviamente, mas mulheres fazendo quadrinhos eróticos são a última fronteira na quebra de paradigmas e estereótipos de gênero no mercado de quadrinhos, e isso é riquíssimo, tanto para as HQs, como para nossa sociedade como um todo. É preciso falar sobre sexo. É preciso que mulheres falem sobre sexo porque ainda vivemos sob uma visão do sexo e sexualidade completamente masculina. Porque infelizmente, o sexo ainda é um tabu até mesmo entre nós mulheres, que ainda tentam se livrar dos inúmeros grilhões sociais, morais e religiosos impostos a nós por milhares de anos. Nosso sexo ainda é cheio de culpa, traumas, inseguranças e peso desnecessários, que acabam transformando o que deveria ser prazeroso e libertador em algo limitador e destrutivo. Quando li Red pela primeira vez, a sensação que tive foi justamente a contrária disso tudo. Ler Red foi como flutuar, dar aquele suspiro após o gozo, sabem? A narrativa da Chai, tanto gráfica quanto escrita, é leve e apresenta uma mulher plena e perfeitamente consciente do papel do sexo em sua vida e de como deve usufruir de sua sexualidade, colocando o prazer a si mesma em primeiro lugar. Não sendo escrava de nada nem de ninguém, nem mesmo do sexo em si, sendo livre, leve, sensível sem ser piegas, aproveitando de tudo sem ideias e ideais pré-estabelecidos. Red é livre e ser livre também é querer ver livres os outros. Que Red nos inspire e nos liberte. “Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância” sempre ela, Simone de Beauvoir.”  – Gabriela Franco

A chairim está entre os indicados do troféu HQMIX 2019 na categoria de Arte-Finalista com a Red.

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