Resenha – Leia Mulheres: um universo inteiro em cada conto

Resenha – Leia Mulheres: um universo inteiro em cada conto

Por Meiri Farias (resenhista convidada)

No livro Leia Mulheres, o imperativo é claro desde o título. Publicado pela Pólen Livros em 2019, a coletânea de contos é organizada pelo grupo homônimo Leia Mulheres em parceria com a Sweek, plataforma de compartilhamento de conteúdo literário. Os 23 contos apresentam autoras de cidades de todo o país e carregam em seu nome um incentivo, mas também um desafio. 

O projeto Leia Mulheres começou inspirado na hashtag da escritora inglesa Joanna Walsh em 2014, que desafiava os seus seguidores a lerem mais obras de autoras mulheres. No fim do mesmo ano, Juliana Gomes decidiu trazer o desafio para a vida real e transformou a hashtag em um clube de leitura em parceria com as amigas Juliana Leuenroth (com quem trabalhou em uma livraria) e Michelle Henriques em São Paulo. Aos poucos, mulheres de várias cidades do país começaram a entrar em contato para criar grupos locais e, em 2019, o projeto completou quatro anos com núcleos presentes em mais de cem cidades. Seis dos contos publicados são de ganhadoras de concursos literários promovidos pela Sweek, nos anos de 2017 e 2018, e os demais são de participantes do grupo Leia Mulheres.

Fonte: facebook.com/leiamulheres/

Embusteiras?! Não mesmo

A coletânea Leia Mulheres apresenta contos muito diferentes entre si – e reforça uma mensagem de pluralidade de narrativas possíveis dentro da autoria feminina. Entretanto, a organização do livro foi muito eficiente em criar uma linha emocional bem consistente, que guia o leitor do início ao fim da leitura. É possível perceber isso claramente ao comparar o primeiro e o último contos, que talvez sejam os melhores exemplos para explicar o tema do livro.

O começo

O primeiro conto do Leia Mulheres, Uma promessa, da autora carioca Aline Aimée, é metalinguístico e ironiza a situação da mulher autora. Dalila, a protagonista da história, é uma jovem autora que decide submeter seu conto a uma coletânea, mesmo sem estar tão certa da qualidade do mesmo. Ao receber um retorno surpreendentemente positivo da mídia e dos leitores, a escritora se vê dividida entre aproveitar o sucesso inesperado ou se envergonhar diante de uma atenção que considera exagerada. Em determinado momento, é chamada de “embusteira” por um autor consagrado, ofendido pelo êxito da novata. Então, Dalila questiona ainda mais o próprio trabalho, de certa forma se reconhecendo na ofensa.

E o fim

Já o último conto, As novas intermitências da Morte, da autora pernambucana Amanda Lins, apresenta um quase monólogo de uma mulher “conversando” com a Morte que espera para levá-la. A mulher vive apenas com a filha e lamenta as dificuldades da vida, o trabalho ingrato, os julgamentos e vergonhas de mulher sozinha no mundo. O tom da conversa é informal, muito pessoal e ao mesmo tempo facilmente identificável na experiência de toda mulher pobre, trabalhadora e esgotada pelo cansaço. Cansada, sim, mas insistindo em ter mais uns minutinhos de conversa com a Morte antes que ela a leve. É um final agridoce para o livro.

Destaques

Embora seja uma seleção muito interessante, sem nenhum ponto baixo, alguns contos merecem destaque pela criatividade que costura a narrativa. Véu do Dia, de Agda Santos, traz a influência do afrofuturismo em um conto solar e poético. Em Rumba, J. Fiúza brinca com um portunhol caliente e ritmado que exala drama, emoção e vinho barato. Já A mulher de trinta anos, de Eduarda Sampaio, faz uma relação entre o envelhecimento e a liberdade na vida da mulher, ao criar coragem de quebrar algumas situações limitantes. Em No hospital, às 00h30, Jéssica Reinaldo Pereira muda completamente o tom ao trazer um suspense psicológico perturbador e desconfortável. E Do outro lado da fresta, de Cila Santos, expõe a crueldade da classe média “evoluída”, pela perspectiva dolorida de uma moça marcada pela pobreza extrema.

Narrativas pessoais

Paralelamente, alguns contos chamaram a atenção por alcançarem lugares mais subjetivos e pessoais, que me tocaram pessoalmente. Irmã e irmão (Gabriela Domiciano) tem uma doçura  inocente da descoberta sem divisão por gênero. Tem cheirinho de viagem e infância. Em A Casa de chá (Mariana Salomão Carrara), a situação se inverte e há a nostalgia forte e a solidão profunda da idade avançada. Dois contos bem diferentes, mas com sentimentos que são quase os dois lados de uma mesma moeda. Os olhos do pai (Fernanda Fontes) traz o mesmo tipo de experiência dolorosa e cortante que marca As novas intermitências da Morte e Do outro lado da fresta, mas com uma conclusão interessante, ao equilibrar o trágico e o cômico. Aquele peso em mim, meu coração (Danielle Sousa) mostra que a magia do conto enquanto gênero literário é conseguir abrigar um universo inteiro em apenas sete páginas. Tudo isso na perspectiva de um jovem abandonado pelo pai, que decide mudar de vida no limite do fim do mundo e na virada do milênio.

A história dentro da história

Mas talvez o conto que mais me emocionou tenha sido Uma mulher olhando a árvore, de Julia Codo. Ao nos guiar metalinguisticamente para aquele espaço onde as histórias – a que a protagonista está lendo e a nossa própria história, de leitoras – se fundem de uma forma delicada, dissolvendo as barreiras entre a realidade e a leitura.

Edição caprichada

Fonte: https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/

É importante mencionar também o trabalho gráfico do livro que a Pólen oferece em uma edição caprichada. A arte da capa é da Eve Queiroz (enquanto ainda assinava suas artes como “Negahamburguer”), artista visual que trabalha principalmente com grafite e tatuagem.

Prêmio Nobel de Literatura

Projetos como o Leia Mulheres chamam a atenção para uma discussão ainda mais profunda: onde estão as mulheres na literatura? Seja dentro de suas páginas, pela forma com que as personagens femininas são representadas, mas principalmente por trás das produções, onde estão elas? O cenário da mulher na literatura mudou bastante nas últimas décadas, mas ainda exibe uma disparidade numérica considerável. Um exemplo notável é que das 114 pessoas homenageadas com o Prêmio Nobel de Literatura até hoje, apenas 14 são mulheres (nem 15% do total), sendo que as duas últimas décadas concentram quase metades das premiadas (6 ganhadoras), embora o prêmio exista desde 1901. 

Prêmio Jabuti

O cenário de reconhecimento talvez seja um pouco mais promissor no Prêmio Jabuti, maior premiação do gênero no Brasil, que geralmente exibe um resultado mais equilibrado. Na edição de 2019, por exemplo, das 19 categorias, dez foram vencidas por mulheres. Mas as condições de produção não são igualitárias. Segundo pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília (UnB), divulgada pela Agência Brasil em 2019, realmente houve um crescimento na publicação de livros por mulheres nas últimas décadas: se em 1970 era de apenas 17,4%, na década entre 2005 e 2014 o número chegou a 29,4%. Entretanto, estamos longe de vislumbrar um ideal de igualdade, já que mais de 70% dos livros publicados entre 2005 e 2014 no país foram escritos por homens, dentre esses, 97,5% brancos. 

A raiz do problema

Mas por que isso acontece, afinal? O que falta para as mulheres se igualarem aos homens em quantidade de produção literária? Virginia Woolf já explicava isso em 1929. A escritora britânica publicou o ensaio Um teto todo seu, baseado em algumas palestras que fez com o tema “A mulher e a ficção”, em que explica como a limitada produção literária feminina estava diretamente associada à falta de recursos da mulher. Enquanto o homem era criado em um ambiente favorável à aspiração intelectual e artística, o limite para a produção da mulher era a sala de casa. A autora expõe como as mulheres não foram incentivadas financeiramente, nem “alimentadas” enquanto artistas. E aquelas que de alguma forma conseguiram ultrapassar essa barreira – como Jane Austen ou as irmãs Brontë, por exemplo – tiveram suas obras questionadas e taxadas de exageradamente emocionais. É  lamentável perceber que ainda estamos com frequência discutindo os mesmos problemas, quase um século depois.

Leia mulheres!

Qual seria a solução para o problema, afinal? Se respondermos aos anseios de Virginia Woolf,o caminho é contribuir para criar um ambiente de formação e incentivo para mulheres – seja na carreira literária ou qualquer outra aspiração intelectual que tenham, abrindo espaço para narrativas diversas e plurais. E, ainda mais importante, consumir efetivamente essas produções e seguir à risca o desafio do início: leia mulheres!

O desafio de 2020 já está lançado:

Fonte: https://www.facebook.com/leiamulheres/

Ficha técnica

Livro: Leia Mulheres
Autora: Várias (organização Michelle Henriques, Juliana Gomes e Juliana Leuenroth)
Editora: Editora Pólen
Ano: 2019
Páginas: 168

Meiri Farias

Jornalista especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo Celacc – ECA/USP, pesquisadora, comunicadora, mas, antes de tudo, leitora. Fundadora e editora do blog de jornalismo cultural Armazém de Cultura, é uma das autoras do livro Mulheres & Quadrinhos.

Já trabalhou com redação, revisão e edição de texto, agências de comunicação e na programação cultural do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo. Atualmente é editora de conteúdo e curadoria no FOX App.

Livia Stevaux

Lívia Stevaux estudou Letras, é editora digital e revisora freelancer por profissão, mas por amor dança, escreve, faz umas miçangas e cosméticos artesanais e amassa gatinhos.

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