Será que cultura pop e política andam juntas?

Será que cultura pop e política andam juntas?

Diante do cenário polarizado que temos observado no país, muitos sites de cultura pop e quadrinhos começaram a compartilhar imagens e vídeos associando discursos proferidos por artistas e personagens do cinema, quadrinhos e da literatura a certas ideologias.

No entanto, ainda que falas como a de Stan Lee sejam claras, como quando ele se refere ao fato de os X-men terem sido criados como uma metáfora para o racismo e a discriminação de gênero, muitos fãs se mostram indignados com essa aproximação entre a cultura pop e a política, alegando que os discursos seriam neutros e que as pessoas os interpretam de acordo com suas convicções.

Mas será que podemos dissociar qualquer produção humana de seu contexto histórico, social e político?

Na escola aprendemos um pouco sobre algumas obras de arte e literatura e sobre o que elas representam, bom, ao menos grande parte das escolas prevêm este tipo de aula em seus currículos. Aprendemos por exemplo, sobre o regionalismo de Graciliano Ramos, temos contato com Vidas Secas e tudo que essa obra representa.

Muitos professores de História recorrem às músicas de Chico Buarque e outros artistas para nos explicar sobre a Ditadura e a censura e eu lembro de um professor usando Titãs para falar sobre acesso a cultura e direitos básicos quando estava no Ensino Médio.

Dessa forma, é natural que quem estude as produções culturais faça isso a partir das relações externas que essas obras estabelecem com seus consumidores. Doutora em Literatura Comparada pela USP, Gizelle Agazzi, por exemplo, explica em sua tese que

Por muito tempo, estudar o período ditatorial que se estendeu
de 1964 a 1985 por meio da produção cultural da época era o
único caminho para tentar compreender o caos e o terror que
se instauraram no país naquele período. A documentação
precária impedia a reconstrução do contexto da época e
sobravam as artes e alguns depoimentos de ex-presos,
exilados e políticos cassados, de pessoas que sofreram direta
e indiretamente com a ação do regime militar, para que fosse
possível sondar os escombros da história daqueles anos. As
insubstituíveis relações entre literatura e história permitiram,
entretanto, reconhecer algumas das forças atuantes no
período. (AGAZZI, 1999, p. 2)

Assim, vale lembrar que os quadrinhos, o cinema, a literatura de ficção são produções que não são desprendidas de um contexto, mas seus consumidores terão maior ou menor compreensão desse contexto de acordo com as habilidades cognitivas individuais, com seu repertório prévio e de acordo com o nível de consciência que possuem em relação à realidade que os cerca.

Especificamente no caso do Brasil, que é um dos países com menor consciência da realidade e com alto índice de analfabetismo funcional, é de se esperar que muitas pessoas, ao ouvirem músicas como Cálice, de Chico Buarque, Como nossos pais, interpretada por Elis Regina e Vida de Gado, de Zé Ramalho, não consigam apreender suas mensagens contra a ditadura e contendo forte crítica social.

O mesmo acontece em relação às obras como Star Wars, Harry Potter V de Vingança, X-Men e tantas outras que trazem em seu cerne grandes preocupações políticas e sociais. Não à toa, eu pude observar que até mesmo em relação às charges, que no Brasil tiveram seu auge nos anos 1960 e 1970 ao retratarem oposição ao sistema de governo vigente, há pessoas que não entendem seu papel na crítica política no Brasil.

Arte de Helô D’Ângelo

Para quem acompanha o Minas Nerds e outros sites com análises críticas de quadrinhos, como os Quadrinheiros, o Judão, Os Jamensos, Delirium Nerd, Nó de Oito, Preta Nerd Burning Hell, Tabuleiro Nerd, entre outros, não é novidade que as obras estabeleçam diversos tipos de relação com a realidade, propiciando uma mediação entre o universo ficcional e o real que nos permite formular novas questões e ressignificar nossas experiências.

Vídeo do Stan Lee falando sobre os motivos de ter criado os X-men

Assim, é espantoso que tantas pessoas se mostrem contrárias às comparações e análises nesse sentido, uma vez que até mesmo os autores de diversas obras se posicionam abertamente sobre o tipo de mensagem que visam passar em seus trabalhos. Como é possível que haja pessoas que ao escutarem The Wall, do Pink Floyd, acreditem que Roger Waters não tenha entendido sua relação com a ascensão do fascismo no Brasil? Logo ele, que dedicou sua vida inteira a denunciar esse tipo de pensamento e suas práticas…

Alguns jornais e pesquisadores do mundo todo atribuem essa “falha” cognitiva à baixa escolaridade e uso excessivo das redes sociais, já que o Brasil está entre os países que mais faz uso dessas tecnologias. Mas seja qual for o motivo que leve fãs de cultura pop a negar as afirmações dos próprios autores de suas obras favoritas, podemos inferir que muito se deve à uma nostalgia ou, como diz Bauman, à retropia, à ideia romantizada de um passado que é associado às memórias afetivas, mas que não é um retrato fiel do que foi de fato vivido.

Negar que há ideologia em toda produção humana, acreditar que exista neutralidade nos discursos, é ingênuo, afinal, tudo que produzimos é reflexo da forma como enxergamos o mundo e das experiências que vivenciamos, de forma que nenhuma obra é isenta de qualquer influência externa.

Assim, quais são as obras que você sugeriria para que pudéssemos interpretar a realidade atual?

Deixo aqui algumas dicas do que já falamos no Minas:

https://minasnerds.com.br/2018/07/10/narrativas-distopicas-nos-quadrinhos/

https://minasnerds.com.br/2017/12/18/politicas-mulheres-que-fazem-cartuns-charges-e-muito-mais/

Referência:

Agazzi, Giselle Larizzatti . A crise das utopias: a esquerda nos romances de Antônio Callado

Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-01122014-152012/pt-br.php

Dani Marino

Dani Marino é Mestra em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e pesquisadora de Quadrinhos. Integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS, também tem graduação em Letras, com habilitação Português/Inglês.

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